sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Outros Verões
Ainda sinto o cheiro entre o acre e o doce das margaridas ou malmequeres. Não sei muito bem como definir o seu odor.
Os dias de verão eram passados a correr pelos campos, com flores a enfeitar os cabelos que se iam perdendo pelos constantes pulos.
Não havia a "variante" nem os prédios na encosta.
Começava a correr cá no cimo, perto do adro da igreja, acabando alguns metros abaixo, perto da casa abandonada, que ainda hoje lá está. Quando por ali corria, não tinha medo de cair, não tinha medo de me perder, não tinha medo dos animais que por ali pastavam ou mesmo aqueles que não via, mas que por ali andavam a ver de comida ou simplesmente passear como eu.
Sentia o ar quente, sufocante bater no meu corpo, escaldando-o. Sentia a blusa, os calções colarem-se ao meu corpo, como se a transpiração fosse cola. O cabelo desalinhado voava ao sabor da corrida alguns dias, noutros ao sabor do pouco vento. Nos dias em que o vento Suão chegava, esses sim é que eram dias de grande calor, sufocante.
Por vezes, parava a meio do caminho. Deitava-me no chão em cima das ervas amarelecidas pelo tempo seco, e rebolava, rebolava, até ficar enjoada. É que só me lembrava que ficaria enjoada, já depois de algumas voltas dadas. Quando assim era, regressava a casa com dificuldade, ter que subir aquela ribanceira que na altura me parecia enorme, mal disposta, com vontade de vomitar nao era das coisas mais agradáveis.
Sempre tive medo da casa abandonada. Imaginava fantasmas que por ali deambulariam, acorrentados aos pilares da casa. Imaginava que fantasmagoricamente nos tentavam atrair até lá e que nunca mais de lá sairíamos. Imaginava que nas noites de inverno, geladas, chuvosas, com nevoeiro, pudessem sair, "voar" pela cidade, espreitando às janelas, assustando quem os visse, divertindo-os.
Hoje gostaria de correr novamente como naquela altura.
Ser livre!
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
***** = códigos a mais!
Números e mais números, assim se resume o meu dia a dia de labuta.
Códigos de entrada no computador + códigos dos dois programas em que trabalho + código do e-mail do serviço + código do e-mail particular + código + código = mais de 20 combinações numéricas em que mexo todos os dias.
E logo eu que não gosto de números e sempre fugi deles, e acho que eles também fugiam de mim.
Nunca fui boa aluna a matemática, embora no 9º ano tenha feito os testes de aptidão profissional os quais como resultado deram que tinha aptidão para números. Desconfiei logo desse resultado, como é que uma aluna com nota negativa a matemática, a sua aptidão profissional poderia passar pelos números??! Mas digo-vos que estava enganada. E descobri como?? Quando entrei no ensino superior já com 35 anos. Esbarrou comigo uma disciplina com muitos números. Pensei logo "Estou f.....!". Não, não é o que pensam! O que pensei foi "Estou FELIZZ!" eheheh. Venha lá a Contabilidade e seja o que Deus quiser. Como trabalhadora-estudante a presença nas aulas eram poucas e andava sempre a ver de colegas para me emprestarem os apontamentos. Não me ia safar! Mas para grande surpresa minha e nem eu sei como fui fazendo as frequências e a nota que começou num singelo 12 foram sempre subindo até chegar ao 18,5. Afinal sabia contar!!!
E afinal o teste de aptidão sempre estava certo, eu e os números em paixão avassaladora.
Mas a minha grande paixão, o meu grande amor são sem dúvida as letras.
Gosto de me envolver no seu emaranhado, tecer uma palavra aqui, uma frase ali.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
O senhor é "Escritor"?
Prometi a mim mesma que não iria escrever, dizer, comentar nada sobre uma reportagem que li, mas não aguentei.
Fiquei tão triste com um senhor que é (?) escritor, que figura no 35º lugar no ranking de "escritor bestseller do 'The New York Times'", vendeu cerca de 985 mil livros no mundo e está editado em 33 países - segundo dados fornecidos pelo próprio.
Na revista "Tentações" (segunda revista da Sábado)de 14 a 20 de Março, da página 30 à 32 está a entrevista feita ao sr. Luís Miguel Rocha autor de entre outros de "A Filha do Papa". Começo por dizer que nunca li nada do senhor, nem sabia quem era até ler a entrevista e acrescento que também não mereceu da minha parte investigação por saber algo mais sobre si.
O meu "mestrado" em informática não me ensinou como colocar aqui a entrevista, mas se alguém me quiser ajudar agradeço. Pelo menos para ler e ficar com a vossa opinião.
Gosto de brincar um pouco com as letras e palavras, umas vezes com mais inspiração, outras menos. Não me considero, nem de longe, uma escritora. Mas gente que se intitula de "escritor" dar a entrevista que deu, é muito triste.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Gosto de livros
Desde que me lembro, os livros (meus ou emprestados) sempre fizeram parte da minha vida. Mesmo quando ainda não sabia ler, pegava nos poucos livros que haviam por casa e fingia. Inventava estórias, muitas vezes a olhar para a capa do dito livro ou para alguma gravura no seu interior.
A biblioteca da minha cidade foi como uma segunda casa para mim, principalmente na altura das férias escolares. Hoje tenho pena de não conseguir por lá passar.
Gosto muito de ler. Livros, revistas, jornais. Tudo quanto seja um conjunto de letras mexido e remexido num qualquer papel, mais vistoso ou rugoso, lá estou eu a colocar o meus olhos castanhos escuros em cima. Olhos curiosos!
Gosto do cheiro de um livro novo, folheá-lo, sentir a textura as folhas intactas, o contacto com a minha pele.
Gosto do cheiro de um livro antigo, a aspereza das folhas amarelecidas pelo tempo, pelo uso.
Gosto de livros!
Gostava de estar rodeada por livros, olhá-los, folheá-los, senti-los. Por onde quer que olhasse, ver livros, livros e mais livros.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
2 de Agosto - Dia de Memória do Holocausto dos Ciganos "Porrajmos"
Em 1944 a Segunda Guerra Mundial já tinha feito milhares de vítimas.
Entre Judeus, prisioneiros políticos, criminosos, homossexuais, soldados soviéticos (prisioneiros) e muitos ciganos sucumbiram nas mãos alemãs.
Em 1933 quando os nazis chegaram ao poder, a maioria dos ciganos já estava registrada e identificada, existindo já políticas anti-ciganas.
Por essa altura, biólogos alemães tentaram descobrir quais as características da raça cigana, já que na maioria dos casos era impossível distinguir os ciganos do resto da população alemã.
"Z" ou "Zigeuner" ou "cigano puro" = indivíduo com três ou quatro avós "verdadeiros ciganos";
"ZM+" ou mestiço em 1ºgrau = < de três avós "verdadeiros ciganos";
"ZM-" ou mestiço em 2ºgrau = tem pelo menos dois avós "ciganos-mestiços";
avó ou avô "verdadeiro cigano" = cigano
Critérios nada científicos que levaram milhares a ser candidatos à esterilização em campos de concentração e posteriormente ao extermínio.
Quase todos os romani de Auschwitz foram mortos em câmaras de gás. Alguns trabalharam até morrer de cansaço ou foram vítimas de fome e doenças.
Na noite de 2 de Agosto de 1944 o "campo-cigano" de Auschwitz-Birkenau fechou! Cerca de 3000 romanis, entre homens, mulheres, velhos e crianças foram mortos na câmara de gás.
Estima-se que 250 a 500 mil ciganos foram assassinados pelos nazis.
Nunca se conheceu um número exacto, mas hoje sabe-se que não foram só os judeus as únicas vítimas de perseguição racista.
Contudo o Holocausto Cigano continua a ser ignorado ou esquecido, ou como algo que nunca aconteceu. As indemnizações nunca chegaram. A dor, o medo, os "fantasmas" dos pouco sobreviventes continua presente por várias gerações.
Nunca nenhum cigano foi convocado ou aceite para depor ou denunciar no famoso Tribunal de Nuremberga, como aconteceu com muitos judeus.
Ainda hoje o Holocausto Cigano é pouco conhecido do grande público.
Muitos ciganos continuam a ser discriminados.
Agradeço hoje e para sempre a "AMSKBrasil", e principalmente ao blogue "Cozinha dos Vurdosn" tudo o que me tem ensinado e ajudado a derrubar algumas barreiras.
Peguei a luta a meio, mas acompanho passo a passo, de braço dado as minhas Princesas Cozinheiras.
Nais Tukê!!
terça-feira, 30 de julho de 2013
domingo, 28 de julho de 2013
Uma porta encostada
Imagem retirada da net
Quando o crepúsculo nos brindava com a sua chegada, era ali que esperava por ti.
Sentada na poltrona, uns dias lendo um livro, outros olhando o horizonte, ocupada em fazer passar o tempo enquanto esperava por ti.
Tanta vez ali repensei toda a minha vida, toda a nossa vida. Nunca, nunca me arrependi das escolhas feitas e se hoje pudesse voltar atrás não mudava nada.
"-Menina Matilde? Sou o Vicente, o novo motorista. Seus pais estão aguardando por si em casa. - Voltei-me devagar e quando o nosso olhar se encontrou o meu coração parou de bater alguns segundos e perdi os sentidos" - passado tantos anos ainda sorríamos ao recordar o nosso primeiro encontro.
As noites de inverno eram as mais dificeis, mas enroscada, tapada com a manta de lã, de gorro, luvas, botas era ali que esperava, sempre, por ti. A primavera brindava o nosso olhar com um mar infinito de cores, mas era o Outono com a sua paleta de vermelhos, laranjas, castanhos que nos fazia sonhar e acreditar sempre no nosso amor.
"-Matilde, minha belíssima Matilde. - e sentia a tua mão acariciar a minha face, o meu cabelo, enquanto os teus lábios procuravam os meus, e quando se encontravam, deliciavam-se no beijo mais terno, suave, que ainda fazia o meu coração bater forte."
Mesmo quando a guerra chegou, e te vi partir para longe sem saber se um dia voltarias, era naquele pequeno templo das minhas noites, que pensava em ti, sonhava contigo e no meu íntimo, ainda esperava por ti. Esperei, esperei, esperei dias, meses, anos por ti.
A primavera chegou há dias. O mar florido mais uma vez presenteou o nosso canto, como um quadro de Monet.
As flores estão dispostas pelas jarras, o livro do momento pousado na mesa, a porta encostada esperando a nossa entrada. O quarto minguante brinda-nos com a sua presença. Sento-me na poltrona à tua espera, ainda espero por ti.
Devo ter adormecido, pois a aurora já se faz anunciar. Ouço passos bem perto. Levanto-me, olho em volta mas não vejo ninguém. Seria imaginação? Um sonho? Volto-me e sentado na poltrona estás tu. Voltas-te! Meu Amor, finalmente voltas-te! Corro para ti. Ajoelho-me à tua frente. Não me estás a ver? Estou aqui! Vicente, estou aqui! Pouso a minha mão sobre a tua perna. Nada sinto!
Ajeitas as flores na jarra, um pequeno toque no livro, endireitando-o na mesa. Na mesa ao lado, espreitas a jarra para ver se tem água suficiente, encostas a porta do mesmo jeito que eu encostava. Sentas-te. Olhas para mim e não me vês. "Estou aqui, meu amor!"
Uma lágrima escorre. Encosto a minha mão na tua face, limpando as lágrimas que escorrem. A tua mão vem segurar a minha.
"-Minha bela Matilde, tenho tantas saudades tuas, meu amor. Sinto a tua falta. Porque partis-te tão cedo?"
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Parabéns aos avós e à minha mãe!!
Continuas tão presente na minha vida, no meu ser.
Recordo quando fazias a barba de manhã e eu ficava a olhar para ti, a sorrir, a ver-te ficar bonito, com a pele macia, e sonhava que um dia quando casasse também gostaria de ver o meu marido a barbear-se.
As tuas mãos delgadas, sarapintadas com sardas como as minhas estão a ficar.
O teu sorriso quando vias a família toda junta.
A tua curiosidade pelos vários aparelhos modernos que iam aparecendo.
Sinto saudades tuas, sinto saudades dos nossos momentos sentados, tapadinhos, cheios de frio (nunca ninguém percebeu o nosso frio), de braços cruzados a ver televisão.
O teu orgulho na mulher que me tornei.
Partis-te cedo demais. Tanto que tínhamos para conversar, sorrir, festejar as vitórias no nosso Glorioso.
Sinto falta do teu cheiro.
Continuas a matriarca que sempre foste e ai de quem te contraria.
Tivemos as nossas zangas (havia alguém que dizia que nos dávamos mal, por temos o feitio igual), as nossas tristezas, as nossas alegrias.
Hoje em dia dizes a mesma conversa várias vezes e eu respondo-te como se a ouvisse a primeira vez.
Gosto de sentir as tuas mãos pequeninas, que um dia já foram bem gordinhas, acariciar as minhas.
Gosto de sentir o cheiro da tua casa.
Gosto de sentir o sabor do teu pão com manteiga e açucar.
Gosto de sentir o teu abraço, e hoje sou eu quem te protege no meu abraço.
Cada um há sua maneira, fez de mim a mulher que sou hoje.
Mais do que meus avós, vocês foram e são os meus pais.
E como um festejo nunca vem só.
PARABÉNS MÃE!!!
Hoje em dia também avó, eheh
Recordo quando fazias a barba de manhã e eu ficava a olhar para ti, a sorrir, a ver-te ficar bonito, com a pele macia, e sonhava que um dia quando casasse também gostaria de ver o meu marido a barbear-se.
As tuas mãos delgadas, sarapintadas com sardas como as minhas estão a ficar.
O teu sorriso quando vias a família toda junta.
A tua curiosidade pelos vários aparelhos modernos que iam aparecendo.
Sinto saudades tuas, sinto saudades dos nossos momentos sentados, tapadinhos, cheios de frio (nunca ninguém percebeu o nosso frio), de braços cruzados a ver televisão.
O teu orgulho na mulher que me tornei.
Partis-te cedo demais. Tanto que tínhamos para conversar, sorrir, festejar as vitórias no nosso Glorioso.
Sinto falta do teu cheiro.
Continuas a matriarca que sempre foste e ai de quem te contraria.
Tivemos as nossas zangas (havia alguém que dizia que nos dávamos mal, por temos o feitio igual), as nossas tristezas, as nossas alegrias.
Hoje em dia dizes a mesma conversa várias vezes e eu respondo-te como se a ouvisse a primeira vez.
Gosto de sentir as tuas mãos pequeninas, que um dia já foram bem gordinhas, acariciar as minhas.
Gosto de sentir o cheiro da tua casa.
Gosto de sentir o sabor do teu pão com manteiga e açucar.
Gosto de sentir o teu abraço, e hoje sou eu quem te protege no meu abraço.
Cada um há sua maneira, fez de mim a mulher que sou hoje.
Mais do que meus avós, vocês foram e são os meus pais.
E como um festejo nunca vem só.
PARABÉNS MÃE!!!
Hoje em dia também avó, eheh
Kings of quê??!!
Até hoje deveria ser a única pessoa a nível mundial e talvez em toda a galáxia, a pensar que os Kings of Leon era um grupo de meninos para aí com 60 anos.
Quando vi quem realmente são, fiquei de queixo caído!!
Como me passou este fenómeno ao lado durante este tempo todo?!
Quando vi quem realmente são, fiquei de queixo caído!!
Como me passou este fenómeno ao lado durante este tempo todo?!
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Internamento mais querido do mundo
Ainda não contei aqui a aventura do meu internamento.
Para mim hospital, só para trabalhar e já não é mau.
Entro de urgência numa sexta-feira quente, sufocante, mesmo já depois do sol posto.
Porque será que: mulher jovem, com dor de barriga tem quase obrigatoriamente que estar grávida?! Teste de gravidez negativo, à palpação há queixas aquando da palpação na fossa ilíaca direita (zona do apêndice), ecografia pélvica, normal; análises quase normais onde ressalta o valor de PCR (sinal de alguma infecção no organismo) alterado
Como não se chega a nenhuma conclusão (apendicectomia realizada há 15 anos) e como estamos no interior e não há médicos a pontapés, fico em observação e à espera para fazer uma TAC (tomografia axial computorizada) para saber onde realmente é a dor e a infecção.
Acordo (acordam-me todos os dias às 6:20h da manhã) muito nauseada e começa a minha romaria diária, nocturna a caminho da casa de banho (ficámos íntimas amigas - neste tempo que estive internada devo ter sido a pessoa que mais visitas lhe fez).
Informação clínica actualizada, uma infecção na trompa de Falópio à direita. Mas que raio de sítio para ter uma infecção. Cinco dias internada com antibiótico tipo bomba nuclear para a infecção baixar. Resultado, visitas e mais visitas ao wc, nauseada, enjoada e a vomitar tudo o que tinha e o que não tinha, só não saiu foi a porcaria da infecção pela boca.
Passado 15 dias de ter saído e feita nova reavaliação, a infecção ainda cá está, no mesmo sítio, do mesmo tamanho, a rir-se de mim.
Dia 31 vou fazer a análise que vai decidir a minha vida no talho. Ou sai uma barriguinha aberta e salpinge cá para fora, como se de uma cesariana se tratasse ou a salpinge cá fica a viver comigo eternamente como um karma, pior que marido.
Durante este tempo já voltei ao serviço de internamento a matar saudades da minha wc mais querida.
Para mim hospital, só para trabalhar e já não é mau.
Entro de urgência numa sexta-feira quente, sufocante, mesmo já depois do sol posto.
Porque será que: mulher jovem, com dor de barriga tem quase obrigatoriamente que estar grávida?! Teste de gravidez negativo, à palpação há queixas aquando da palpação na fossa ilíaca direita (zona do apêndice), ecografia pélvica, normal; análises quase normais onde ressalta o valor de PCR (sinal de alguma infecção no organismo) alterado
Como não se chega a nenhuma conclusão (apendicectomia realizada há 15 anos) e como estamos no interior e não há médicos a pontapés, fico em observação e à espera para fazer uma TAC (tomografia axial computorizada) para saber onde realmente é a dor e a infecção.
Acordo (acordam-me todos os dias às 6:20h da manhã) muito nauseada e começa a minha romaria diária, nocturna a caminho da casa de banho (ficámos íntimas amigas - neste tempo que estive internada devo ter sido a pessoa que mais visitas lhe fez).
Informação clínica actualizada, uma infecção na trompa de Falópio à direita. Mas que raio de sítio para ter uma infecção. Cinco dias internada com antibiótico tipo bomba nuclear para a infecção baixar. Resultado, visitas e mais visitas ao wc, nauseada, enjoada e a vomitar tudo o que tinha e o que não tinha, só não saiu foi a porcaria da infecção pela boca.
Passado 15 dias de ter saído e feita nova reavaliação, a infecção ainda cá está, no mesmo sítio, do mesmo tamanho, a rir-se de mim.
Dia 31 vou fazer a análise que vai decidir a minha vida no talho. Ou sai uma barriguinha aberta e salpinge cá para fora, como se de uma cesariana se tratasse ou a salpinge cá fica a viver comigo eternamente como um karma, pior que marido.
Durante este tempo já voltei ao serviço de internamento a matar saudades da minha wc mais querida.
domingo, 21 de julho de 2013
Só
Imagem retirada da net
Mais um amanhecer.
Aqui estou, distante da vida normal, distante de qualquer vida.
Enraizada nesta terra que me consome pouco a pouco, sugando o meu ser, consumindo a minha alma.
Neste lugar cavernoso fiz a minha casa, o meu lar. Despojado de tudo, sentimentos, alegrias, cor.
É aqui, neste mágico lugar onde a bruma me acompanha e envolve com o seu manto humedecido, onde as árvores fantasmagóricas me protegem, as folhas secas servem de leito, que estou em casa.
A ponte que une as duas margens, é percorrida vezes sem conta durante o dia. Por momentos, páro a meio, sustenho a respiração até não poder mais, exalando lentamente, expelindo todo o ar possivel, para inspirar bem fundo o ar bafio envolvente.
Quando o entardecer chega, e os pirilampos se juntam para me iluminar, aguardo. É por este momento que espero.
Hoje não te vi chegar. Apenas senti o teu abraço envolver o meu corpo, sentindo os teus lábios saboreando o meu pescoço. Fechei os olhos e deixei-me levar...
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Letras e números
CA 125.
Estas são as letras e números que irão acompanhar o meu pensamento durante os próximos dias.
Pensamento positivo!!!
Estas são as letras e números que irão acompanhar o meu pensamento durante os próximos dias.
Pensamento positivo!!!
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Luar roubado
Imagem retirada da net
Brindas a minha noite com os teus raios cor de prata, brilhantes.
É na solidão do meu quarto que todos os desejos, sonhos, se tornam reais.
Deitada sobre a minha cama, o lençol envolve as minhas pernas, deixando o restante corpo desnudo. A noite está quente. O sono teima em chegar.
A mão desliza pela almofada, pelo lugar vazio que se encontra ao meu lado. Fecho os olhos tentando imaginar o teu corpo, o teu cheiro, aqui. Os braços agarram a almofada e deixo os lábios saborear um beijo imaginário...
Suavemente sinto a tua mão deslizar no meu corpo, passando a um toque possante que faz estremecer o meu ser.
Não quero abrir os olhos, quero continuar a sonhar, desejo, quero!
Envolves os meu corpo despido nos teus braços. Sinto o teu corpo quente, ardente, ardendo de paixão.
Saboreio os teus lábios, sentindo o teu beijo ofegante. Estou a sentir!
Não consigo fazer nada a não ser sentir, o teu toque, o teu corpo, o teu beijo, o teu desejo entrar dentro de mim.
Amas o meu corpo, enquanto o luar vai desenhando os nossos corpos envoltos pelas paredes, pelo chão.
É ele que te trás até mim.
O sol entra pela janela, acordando-me. Não quero olhar para o lado e ver a cama vazia. Lentamente a minha mão desliza pelo lençol vazio. Saio da cama, do quarto, deslizando o meu corpo pelo corredor escuro. Subo as estreitas escadas interiores, que me levam até ao sótão. Ao abrir o pequeno alçapão vejo o quarto minguante roubado na noite.
Sendo ele que te trás até mim, agora tenho-te tantas as vezes que desejo.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Estar doente, dói!
Como seria bom chegar, sem nunca ter que partir.
Os últimos dias não têm sido bons. Depois de uma semana internada a perspectiva de operação ainda paira no ar e a dor continua. Aguardemos então até sexta-feira, dia do verídicto final.
Muitas ideias, muitos bilhetes escritos espalhados pela mala, um conto a tomar forma, mas sinto-me em baixo ainda.
Tive miminhos dos amigos, dos daqui, do facebook.
Saudades dos tempos em que conseguia publicar um post todos os dias.
Obrigado a quem me visita.
Os últimos dias não têm sido bons. Depois de uma semana internada a perspectiva de operação ainda paira no ar e a dor continua. Aguardemos então até sexta-feira, dia do verídicto final.
Muitas ideias, muitos bilhetes escritos espalhados pela mala, um conto a tomar forma, mas sinto-me em baixo ainda.
Tive miminhos dos amigos, dos daqui, do facebook.
Saudades dos tempos em que conseguia publicar um post todos os dias.
Obrigado a quem me visita.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Parar o tempo
Gentilmente cedida por Dias Miguel
Queira fazer parar o tempo aqui, agora, neste momento para sempre.
Quantas são as noites que espero ansiosa por te conseguir ver, nem que seja lá longe no horizonte, como estás neste momento.
Inundas o céu com os teus cálidos raios, tocando possantemente as nuvens que teimam em atravessar o teu caminho, colocando-se entre nós.
Acordei à pouco sentindo a leve aragem que do teu ser exala enquanto avanço pela estrada solitária que percorro todas as noites.
Por vezes as estrelas saltitam entre si, tentando alegrar o meu mundo.
Outras vezes, um meteoro mais distraído passa mais perto, deixando um raio de luz atrás de si. É nestas alturas que alguns mortais aproveitam para pedir um desejo, desejo esse que nunca se concretizará, mas que os faz acreditar no momento mágico. Também eu por vezes peço um desejo. O mesmo desejo desde que me conheço."Parar o tempo aqui e agora neste momento, poder avançar e com a minha luz abraçar os teus raios, chegar o mais perto de ti e sentir o teu beijo. Uma única vez!"
Mais uma vez o teu belíssimo crepúsculo presenteia a minha chegada com deleitoso espectáculo.
Envergonhada minguo, chorando lágrimas de prata que voam pelo universo
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Escondido pelos medos
São Jorge na Floresta ou São Jorge e o Dragão (1510)
Albrecht Altdorfer
Pinakothek, Munich
Por vezes o tempo passa tão rápido, tão rápido como o relampaguear que ilumina algumas das noites que têm passado pela minha vida solitária. Outras vezes lento como o passo do caracol.
Perdido, solitário, diria mesmo abandonado desta vida e de todas as outras que perdi em toda a minha existência. Minha alma vagueia pelo tempo, por lugares muitas vezes desconhecidos, sem no entanto nunca sair deste local onde me encontro. Um pequeno bosque, denso, que não me deixa visualizar outras paragens reais.
Certos dias sinto que me vigiam, que acompanham todos os meus passos, todos os meus delírios, gritos, anseios, desejos. Quem são? Não sei. O que são? Também não sei. Apenas sei que sinto o seu olhar penetrante pelo meu corpo.
Cavalgo calmamente sentindo a brisa fresca do final do dia que corre pela minha face. Sinto o olhar penetrante de novo, mas hoje, atacarei os meus medos e libertar-me-ei de todos os meus medos, todos os meus anseios.
De espada em punho, embrenho-me pelo espesso arvoredo procurando, quem me procura. Ao meu olhar surge um dragão. Um dragão que cresce ao meu medo. A luta adivinha-se feroz, perigosa. Fecho os olhos e sigo em frente.
O combate termina com a espada trespassando o escamoso corpo.
Sinto o meu ser, a minha alma ficar leve. Pouco a pouco o dragão fica pequeno até desaparecer. Surge então uma pequena clareira, convidando-me a passar, descobrir o mundo, deixar para trás os meus medos.
Não olho para o que foi deixado atrás. Confiante, sigo em frente, aguardando novas batalhas.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Dia Mundial dos Refugiados
Hoje comemora-se o Dia Mundial dos Refugiados.
De olhar triste, olham as estrelas no céu
Sonham com a casa que ficou distante
Marejados olhos com lágrimas de saudade
Não merecem tanta crueldade
Observam ao longe a Terra que os viu nascer
Terra essa que os obrigou a fugir
Por ela desejam um dia voltar
Caminhar, seguir, e talvez nunca mais partir
De olhar triste, olham as estrelas no céu
Sonham com a casa que ficou distante
Marejados olhos com lágrimas de saudade
Não merecem tanta crueldade
Observam ao longe a Terra que os viu nascer
Terra essa que os obrigou a fugir
Por ela desejam um dia voltar
Caminhar, seguir, e talvez nunca mais partir
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Oh meu Rico Santo António - Reeditado
Oh meu rico Santo António
Santinho da minha devoção
Não me arranjes já marido
Não me quero casar, não!
Roupa lavada e comida já prontinha
Todos querem de bom agrado
Mas ajudar aqui as meninas
É pior do que mau olhado!
No início tudo é bonito
Das flores, ao beijo "roubado"
Depressa esquecem os miminhos
E procuram outro achado
Nas noites de bailarico
Gosto da bela sardinha assada
Comprar uma rifa e sair um mangerico
E chegar a casa toda amassada
Mas a noite já passou
E o meu santinho que bem se comporta
Perto do meu coração
E homem longe da minha porta!
Santinho da minha devoção
Não me arranjes já marido
Não me quero casar, não!
Roupa lavada e comida já prontinha
Todos querem de bom agrado
Mas ajudar aqui as meninas
É pior do que mau olhado!
No início tudo é bonito
Das flores, ao beijo "roubado"
Depressa esquecem os miminhos
E procuram outro achado
Nas noites de bailarico
Gosto da bela sardinha assada
Comprar uma rifa e sair um mangerico
E chegar a casa toda amassada
Mas a noite já passou
E o meu santinho que bem se comporta
Perto do meu coração
E homem longe da minha porta!
Primavera = Inverno
A neblina cerrada continua a inundar as minhas madrugadas.
Paisagens fantasmagóricas que envolvem o meu ser.
Paisagens fantasmagóricas que envolvem o meu ser.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Ser Bela dói
Sou tão bela, mas tão bela que até firo as vistas.
Por vezes, o descontrolo é tanto que me tentam atropelar
Assobios e piropos nem ouvi-los (será surdez?)
Passar à frente então, nem pensar!
"um copo de água, se faz favor!"
"olhe levante-se e vá buscar!"
Por vezes, o descontrolo é tanto que me tentam atropelar
Assobios e piropos nem ouvi-los (será surdez?)
Passar à frente então, nem pensar!
"um copo de água, se faz favor!"
"olhe levante-se e vá buscar!"
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Frio Polar
Hoje o dia acordou cinzento, um vento desagradável, chuva na iminência de cair a qualquer momento.
Estamos a 29 de Maio. 29 de Maio??!! Não era para estar um calor descomunal, daqueles que nos faz transpirar até mais não, em que maldizemos o anúncio do desodorizante que diz que podemos andar activas durante 48h sem uma pinga de suor ou cheiro?!
Quando saí para mais um dia de labuta, senti que deveria ter vestido outra roupita mais aconchegante e quem sabe voltar ao casaco de Inverno.
Porra, está um frio do caraças!
Estamos a 29 de Maio. 29 de Maio??!! Não era para estar um calor descomunal, daqueles que nos faz transpirar até mais não, em que maldizemos o anúncio do desodorizante que diz que podemos andar activas durante 48h sem uma pinga de suor ou cheiro?!
Quando saí para mais um dia de labuta, senti que deveria ter vestido outra roupita mais aconchegante e quem sabe voltar ao casaco de Inverno.
Porra, está um frio do caraças!
terça-feira, 28 de maio de 2013
Punk is not dead!!!
Miley Cyrus - MET 2013
Madonna - MET 2013
Nina Dobrev - MET 2013
Anne Hathaway - MET 2013
Kristen Stewart - MET 2013
Sienna Miller - MET 2013
Donatella Versace - MET 2013
Julie Macklowe - MET 2013
Olhos esfumados, que ainda ando a aprender a fazer. Maquilhagem e eu não combina muito bem, eheh.

Gosto destas! As de cima para uma ocasião especial, as de baixo para o dia a dia
Madonna - MET 2013
Nina Dobrev - MET 2013
Anne Hathaway - MET 2013
Kristen Stewart - MET 2013
Sienna Miller - MET 2013
Donatella Versace - MET 2013
Julie Macklowe - MET 2013
Modelos que era bem capaz de vestir.
Adoro esta cor de batonOlhos esfumados, que ainda ando a aprender a fazer. Maquilhagem e eu não combina muito bem, eheh.

Gosto destas! As de cima para uma ocasião especial, as de baixo para o dia a dia
A roupa é simplesmente fantástica. Muito do meu agrado, mesmo os modelos masculinos.
Punk is not dead e está na moda este ano.
Em termos musicais, em Portugal, temos ou tivemos: Censurados, Mata-Ratos, Mão Morta, Peste & Sida; a nível internacional: Iggy Pop, My Chemical Romance, Ramones, Ratos do Porão, Sex Pistols, Siouxsie & the Banshees, The Clash, The Offspring, Joy Division, The Cure, Echo & the Bunnymen, The Jesus and Mary Chain, Nick Cave and the Bad Seeds, The Smiths, etc.
Estas as minhas preferências!
sábado, 25 de maio de 2013
Revista Plátano - Lançamento
Café Alentejano - o palco da cerimónia
O céu azul presenteou o dia 22 como um verdadeiro dia de Primavera, como não se tem visto este ano.
Mário Casa Nova Martins, Director da Plátano - Revista de Arte e Crítica de Portalegre, o grande impulsionador desta iniciativa e em angariar colaboradores.
Da mesa fazem parte, e da esquerda para a direita, Olga Ribeiro - Conselho Editorial, Avelino Bento - Conselho Editorial, Maria Adelaide Teixeira - Presidente da Câmara Municipal de Portalegre e claro, Mário Casa Nova Martins.
Da mesa fazem parte, e da esquerda para a direita, Olga Ribeiro - Conselho Editorial, Avelino Bento - Conselho Editorial, Maria Adelaide Teixeira - Presidente da Câmara Municipal de Portalegre e claro, Mário Casa Nova Martins.
Alguns do presentes na sala emblemática de um café que se recusa em modernizar e ainda bem. Entrar nesta sala é como entrar nos anos 50, 60. As mesas, as cadeiras, os sofás, os espelhos criam uma atmosfera mágica.
Um dos momentos de poesia, declamada por Olga Ribeiro.
Isabel Corte Real e o seu "Portalegre está de luto", mais um momento de poesia.
Isabel Corte Real e o seu "Portalegre está de luto", mais um momento de poesia.
E porque não convidar a plateia a recordar momentos da sua vida naquele mesmo café??
Manuel Morujo tem muitos momentos vividos ali, uma vez que morava a menos de 20 metros, mais tarde, na altura do liceu. Estórias de vida, de gente, de grande escritores como José Régio que por ali também passava.
Aqueles sofás vermelhos têm muita história e o boneco lá atrás, se falasse... eheh
Manuel Morujo tem muitos momentos vividos ali, uma vez que morava a menos de 20 metros, mais tarde, na altura do liceu. Estórias de vida, de gente, de grande escritores como José Régio que por ali também passava.
Aqueles sofás vermelhos têm muita história e o boneco lá atrás, se falasse... eheh
Outro momento de confidências, desta vez, do sr. Padre Américo, também ele um Portalegrense adoptado.
O meu conto, com ilustração da minha amiga Mané
E para acabar, o painel com imagens de trabalho no campo do nosso Alentejo, um dos "ex-libris" do café Alentejano.
Foi uma tarde bem passada com sala cheia, como alguns fizeram questão de mencionar, como há muitos anos atrás.
Das poucas recordações que tenho daquele espaço, uma delas inclui sem dúvida o meu avô.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Revista Plátano - O Conto
Envolta
na Bruma
“-Vá
lá Matilde, só desta vez!”
Mais
uma vez as colegas a conspirar contra ela. Sempre a quererem arranjar-lhe
namorado; o primo da vizinha, o amigo da prima, o irmão da senhora da loja de
bijuteria, tantos que já lhes tinha perdido o conto. Eles bem se esforçavam
para lhe agradar, mas não valia a pena. Ela não pensava encontrar o seu
príncipe encantado assim.
Por
vezes ela dizia-lhes: “…sem esperar, ele vai
aparecer numa noite em que a bruma descer sobre a cidade, e quando o nosso
olhar se encontrar, eu saberei!”, e as amigas riam com o discurso da paixão imaginária.
“-Está
frio! Já viram como o tempo se está a pôr?”
“-No
restaurante não está frio.”
“-Está
bem! Está bem! Irei ter com vocês às 20h. Que aborrecidas!
Voltou-se
para a janela e observou o tempo lá fora. O dia cinzento, por vezes negro como
breu, o nevoeiro intenso e a chuva miudinha que caía desde manhã. O vento soprava, por vezes forte, outras como um
toque suave de uma pena gelada. Um dia de Inverno.
“
Um Inverno como não se via há muito na cidade”.
Pelo menos era o que ouvia aos mais velhos sentados no Jardim do Tarro, ou mesmo
àqueles que a meio da tarde bebericavam o café, um bagaço ou um copo de vinho, no café.
Perde-se
a ver a paisagem. A sua mente vai além do que o parque de estacionamento em
frente, ou o “muro” de prédios que bloqueiam a sua visão. Por vezes parte para
longe. A sua alma viaja pelo tempo, levando-a por sítios onde nunca esteve,
fazendo-a sorrir. Outras vezes a viagem é por perto, com pessoas do dia-a-dia,
conversas que se interligam em espaços confusos.
“-Até
logo!” – a voz da colega que se despede, acorda-a dos seus pensamentos.
“-Sim.
Desculpa. Até logo!”
Olha
em frente e embrenha-se no trabalho até à hora de saída.
Ainda
chove quando sai. Abotoa o casaco, segura na mala e abre a porta. A aragem fria
que lhe toca a face, enregela-a, assim como as pingas que molham o rosto. A seu
lado, alguns colegas apressam o passo, outros debaixo dos guardas chuvas e
olham-na espantados. Desde sempre gostara de andar à chuva, e de sentir as
gotas cair na face, escorrendo, gelada.
Ao
sentar-se no carro, sorri.
“-Talvez
ligue a desmarcar o encontro.”
Um
sentimento estranho percorreu o seu corpo e nesse momento o seu pensamento voa
para longe. Ouve o som de uns sinos e alguém chamar “Vicente”. O rádio acende e a música acorda-a daquele sonho. “-Que
estranho!”
Ao
início da noite ainda continua a chover, a neblina está ainda mais cerrada, não
deixando ver tão bem a estrada em frente. Vai
devagar. Não há lugar no estacionamento perto do restaurante, a solução
encontra-a perto da antiga moagem e segue a pé.
Mais
uma vez o jantar não correra bem. Quer dizer, para ela corre sempre bem, por
vezes chega a ter pena dos esforços e figuras tristes que os pretensos
pretendentes fazem.
“-Não
quer companhia até ao carro?”
“-Não
é preciso o carro está aqui perto.”
“-Não
te vamos deixar ir sozinha.”
“-Vou
a correr, não se preocupem. Está mesmo aqui ao lado e ainda é cedo.”
Depois
da despedida sai sozinha do restaurante.
Continua
a chover e a bruma é intensa. A famosa Rua
Direita com as suas luzes fantasmagóricas assustam qualquer um. Uma rua tão
diferente da que foi noutros tempos. O comércio resistente a esta crise com
tanta dificuldade de seguir em frente, em arranjar chamariz aos lagóias de
carteira vazia.
Encontra-se
tão embrenhada nos pensamentos que nem repara que, um
pouco atrás, três jovens conversam sobre a sua passagem e a seguem. Um pontapé
numa lata denuncia os perseguidores, fazendo com que Matilde se volte devagar e
se aperceba do que se passa.
“-Para
que lado vou? Se seguir para baixo até à Fonte Nova, eles conseguem alcançar-me
antes que chegue ao carro. Se ligar a pedir ajuda, já não chegam a tempo.”
Encontrava-se
embrenhada nestes pensamentos, quando o seu olhar encontra o Antigo Palacete
dos Condes de Castelo Branco, onde actualmente está o museu de Tapeçaria Guy
Fino. Pensa logo no novo jardim junto à muralha e que se correr um pouco chegará
rapidamente ao carro.
O
corpo vira-se em direção ao Palacete, os seus passos aceleram um pouco. Sente o
frio na sua face, a neblina cerrada envolve-a como se fosse envolvida por um
abraço protector. Ao voltar-se para o lado do jardim, o seu olhar “morre” no
portão fechado.
“-Faz
com que esteja aberto! Por favor!”. Todo o seu corpo desfalece quando as mãos
tentam empurrar o portão e este não abre. Tacteia o portão, tentando encontrar
a fechadura, a tranca. O rosto encosta-se às grades tentando passar através
delas. Atrás, ouve os passos dos seus perseguidores, agora mais perto.
O
nevoeiro cerrado não a deixa distinguir quem se aproxima, mas consegue ouvir as
vozes, os risos e os passos cada vez mais perto.
Volta-se para eles, aguardando-os. O seu
corpo tenta fundir-se com o portão. Lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto.
Cerra os olhos. Não quer nem ver quem a persegue.
De
repente, sente o
corpo, sem o apoio do portão, e ser
puxado por alguém. Alguém a abraça suavemente. Não consegue abrir os olhos, não
consegue gritar. O abraço aquece o seu corpo gelado, fazendo-a acalmar.
“-Será
que morri?” – pensa, um pouco confusa.
Aos
poucos abre os olhos e em frente a si, encontra os três homens que a
perseguiam. O seu corpo estremece com o medo. Os braços que a abraçam,
apertam-na um pouco, como se quisessem dizer para ficar quieta.
“-Para
onde foi? É impossível ter-se evaporado.”
“-O
portão está fechado. Por aqui ninguém passou. Será que a viste vir para este
lado? Com o nevoeiro que está podemos ter-nos confundido.”
“-Vamos
embora!”
Como
era possível estar frente e frente com os seus perseguidores e eles não a
verem? Como teria passado pelo portão fechado?
Viu
os perseguidores voltarem-se e seguirem pelo caminho que ela mesmo tinha feito.
Gradualmente foi ouvindo os passos cada vez mais longe. Agora chegava a hora de
ver quem a segurava. O seu coração bombeava o sangue tão rápido, que sentia
esse batimento forte bem perto na sua garganta. O corpo estava sem força, não
sabia o que ia encontrar e o medo tinha-a paralisado.
O
abraço forte que a segurava, foi-se despegando lentamente. Sentiu alguém atrás
de si. Tinha tanto medo de se voltar.
“-Nada
temei, minha senhora” – o som daquelas
palavras fizeram o seu corpo acalmar e aos poucos o medo começou a passar.
Lentamente, voltou-se.
Não
queria acreditar no que se encontrava à sua frente. Um homem, isso tinha a
certeza pelo aspecto da barba por fazer. Um homem vestido de guerreiro, como se
o Carnaval ainda não tivesse acabado. A roupa era de couro, reforçada por
placas metálicas, brafoneiras e caneleiras e um capuz de malha metálica. Na mão
um escudo circular de madeira, também revestido com placas de ferro e, para
completar a indumentária, punhais e outras
armas de que nem sabia o nome. Neste momento não sabia muito bem se estaria em
segurança. Recuou um pouco.
“-Quem
és?” – perguntou, a medo.
“-O
meu nome é D. Vicente de Barbosa, filho de D. Fernão Pires de Barbosa, tenente
de Vizela, nobre ao serviço de meu senhor el rei D. Dinis, e do seu irmão D.
Afonso, senhor de Portalegre minha senhora.”
“-O
quê?”- de certeza que tinha morrido e ido para um lugar entre o céu e o
inferno. Começou a andar de um lado para ou outro, sem saber se assustada pela
presença de estranha criatura, se por não saber o que lhe teria acontecido. O
seu pensamento recuou um pouco e visualizou todo o trajecto desde a saída do restaurante
até ao portão.
“-O
portão!”
Encaminhou-se
para ele e encontrou-o fechado. Como teria ela passado por ele? Continuava a
chover. O céu escuro e o nevoeiro que descia pela encosta da serra, dançavam
com as luzes uma dança maravilhosa. D.Vicente encaminhou-a por umas escadas,
passaram pelo passadiço no pequeníssimo lago e sentaram-se perto da fonte.
Matilde começou a chorar.
“-Como pode tão linda donzela deixar o espelho
da alma mostrar seus segredos?” e sentou-se perto de Matilde.
O
olhar dela subiu devagar até encontrar o olhar de D.Vicente. Um olhar meigo,
calmo que transmitia segurança, um olhar que tocou o seu coração.
“-Nada
temei, não vos vou fazer mal. Já há muitos anos que não falava com viv’alma,
que não via ninguém, minha senhora.”
“-Esteve
preso? E porque está vestido dessa maneira?”
“-Preso
no tempo, preso por amor.”
Matilde
sentiu o seu coração parar de bater por breves segundos. Aquele olhar ficou
preso ao seu. Ali estava o seu príncipe encantado e como ela sempre disse, ele
chegou numa noite em que a bruma desceu sobre a cidade.
“-
Corria o ano de 1299, da graça de D. Dinis, El-Rei de Portugal e do Algarve.
Meu pai encontrava-se ao serviço de D. Dinis e eu ao serviço de seu irmão
D.Afonso, senhor de Portalegre. Eram poucos os nobres que lutavam ao lado de
D.Dinis.”
“-Você
está a brincar, não está?”
“-Minha
senhora, não ouso enganar vossa senhoria.”
“-O
que estava a acontecer?”, pensou Matilde, preocupada, encaminhando-se para
perto da muralha, sendo seguida por D.Vicente, que continuava a falar:
“-O
cerco durava a algumas semanas. D. Afonso não queria deixar a vila, tinha o
apoio do povo e de alguns nobres que D.Dinis não soube acarinhar, tratando-os
arrogantemente, principalmente a nobreza de corte, deixando desaparecer as
principais linhagens, não as substituindo, extinguindo as tenências, entre
outras medidas pouco convencionais para um rei. Preocupava-se mais com os
versos. Contudo D. Dinis foi recuperando quase todos os senhorios detidos por
D. Afonso.”
Matilde
olhava para D.Vicente enternecida. Por muito que lhe custasse acreditar no que
estava a acontecer, quando D.Vicente segurou a sua mão e a encaminhou para a
torre, o toque dessa mão era bem real.
“-Era
daqui que avistava as tropas inimigas, muitos conhecidos, mas divididos nesta
luta entre o seu rei e o seu senhor. Jurei defender o meu posto até à morte.”
“-Este
cerco de que fala, durou quanto tempo?”
Lembrou-se, um pouco envergonhada, que deveria ter prestado mais atenção nas aulas
de História.
“-Cerca
de cinco meses, ocupando grande parte do tempo quente. Portalegre sempre foi
uma vila quente, até as noites.”
Ao
chegarem no cimo da torre, avistaram o que a bruma deixava, descendo pela
encosta da serra, envolvendo a cidade, passando pela Serra da Penha, indo
morrer na zona da estação.
D.Vicente
contemplava a cidade como se fosse a primeira vez, mas pelo que dizia já ali
andava há 700 anos. Seria isso possível?
“-Foi
então que vi a mais bela donzela de todo o reino. Tentando acabar novamente com
a guerra entre os dois irmãos, como já tinha acontecido em Arronches, em 1286,
D.Beatriz de Castela, mãe dos infantes, D.Isabel de Portugal e D. Maria de
Castela chegam a Portalegre para falar com D. Afonso. Com D. Isabel de
Portugal, vinha a Belíssima Sofia, uma de suas aias. Quando o nosso olhar se
encontrou, o meu coração parou de bater, nunca tinha visto tão bela donzela.
Com o meu ser, jurei-lhe amor eterno. Os poucos dias que nos encontrámos
valeram por semanas, meses, anos. Enquanto D. Isabel, D.Beatriz e D.Maria
falavam com D. Afonso tentando apaziguar a guerra entre os dois irmãos, eu
mostrava a vila a tão bela donzela, Belíssima Sofia. A atalaia mais alta onde a
vista se perdia no horizonte, o pôr do sol quente do Alentejo. Apaixonámo-nos
perdidamente.”
Matilde
não conseguia deixar de olhar para D.Vicente, imaginando-se num filme medieval.
“-No
dia em que partiu, jurei-lhe que ao findar da batalha, iria ter com ela a
Lisboa. Já tinha falado com meu senhor, D. Afonso, que me prometera dispensar
uns dias. Desde que a tinha visto pela primeira vez, à noite escrevia-lhe
pequenas cartas de amor. Guardei-as e no momento da despedida, entreguei-lhas.
Ousei beijar suas mãos delicadas, formosas, jurando-lhe amor eterno, entre
lágrimas.”
Suspirou,
e continuou:
“Após
a sua partida, viveram-se dias complicados, de grande tensão. D. Afonso recuou
no decidido com sua mãe, e após uma longa batalha, as tropas de D. Dinis
entraram em Portalegre. Ao saber disso, D.Afonso foge, deixando muitos dos seus
defensores para trás. Não houve misericórdia para os inimigos. Jurando defender
a minha torre, lutei por D. Afonso fugitivo. Vendo-me cercado, soube que ia
morrer. Mesmo sendo meu pai um rico-homem ao serviço de D. Dinis, não houve
misericórdia para o seu varão. Ao descer essas mesmas escadas (apontava para as
escadas atrás deles), jurei amor eterno à Belíssima Sofia, e com as lágrimas a
escorrer pelo meu rosto por saber que nunca mais veria tão bela donzela, lutei
até a última adaga trespassar o meu corpo, tirando-me a vida.”
D.Vicente calou-se, a sua mão deslizou para
perto do seu coração, e uma mancha de sangue apareceu. O rosto voltou-se para o
horizonte, e o silêncio desceu sobre eles, como
a bruma.
Matilde
visualizou toda a história na sua cabeça uma vez mais. Ali à sua frente, estava
um homem com 700 anos que morreu a lutar no que acreditava, a lutar por um
fugitivo, jurando amor eterno à sua donzela. Chegou-se perto de D.Vicente, a
sua mão tocou a dele, olharam-se, abraçaram-se e ali ficaram no cimo da torre.
Fechou os olhos. Ao longe ouviu uns sinos tocar.
“-Belíssima
Sofia, eu sabia que te iria encontrar outra vez.”
Quando
abriu os olhos, encontrava-se deitada em sua cama, enrolada nos lençóis.
Sentou-se, olhando em redor. O relógio marcava 6:45h da manhã, hora de acordar
para mais um dia de trabalho. Teria sido um sonho? Tinha sido tão real!
Após
o duche, olhou-se no espelho e pensou em como seria a Belíssima Sofia. Pensou
em D.Vicente.
No
caminho para o serviço, ao passar pela torre, parou o carro e encaminhou-se
para lá. Subiu as poucas escadas, olhou o pequeno jardim à direita, passou por
baixo da muralha e encaminhou-se à torre. Ao subir os degraus, sentiu o coração
bater mais forte, olhou em volta tentando ver D.Vicente. Teria sido um sonho?
Olhou
novamente em todas as direções, sorriu e começou a descer as escadas. Ao chegar
à última, olhou para o lado e encontrou um pedaço de papel preso entre as
pedras, na parede. Pegou nele mas não conseguiu ver o que era. Correu até ao
carro e seguiu para o serviço.
Ao
entrar, deparou-se-lhe alguma confusão por causa da chegada no novo gestor.
“-Matilde,
esqueceste-te!?”-
Tinha-se
esquecido, mas agora já era tarde.
“-Não
esqueci. Dormi mal e nem tive tempo de me arranjar.”
“-Deixa
já não há nada a fazer.”
Colocou-se
ao lado da colega para receber a comitiva da direção.
O
seu olhar prendia-se no pedaço de papel que tinha retirado da torre. Nem deu
pela chegada das chefias à sala. Quando a colega a beliscou para ela estar com
atenção, o papel caiu no chão. Alguém se baixou para o apanhar e, quando o entrega a Matilde, ela fica pasmada com
o olhar e a face que está à sua frente.
“-Creio
que seja seu, Belíssima Matilde!”
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Revista Plátano - Lançamento

http://avozportalegrense.blogspot.pt/2013/05/platano-n-6.html
É aqui que irá sair o conto que escrevi passado (inventado) na minha cidade. Tudo devaneio, mas o qual tive muito prazer em escrever.
Depois do lançamento, publicarei aqui o conto para quem não tem oportunidade de o ler na revista.
Quem tem oportunidade, apareça!! Eu estarei por lá, escondida!! eheheh
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