domingo, 28 de julho de 2013

Uma porta encostada

Imagem retirada da net
Quando o crepúsculo nos brindava com a sua chegada, era ali que esperava por ti.
Sentada na poltrona, uns dias lendo um livro, outros olhando o horizonte, ocupada em fazer passar o tempo enquanto esperava por ti.
Tanta vez ali repensei toda a minha vida, toda a nossa vida. Nunca, nunca me arrependi das escolhas feitas e se hoje pudesse voltar atrás não mudava nada.
"-Menina Matilde? Sou o Vicente, o novo motorista. Seus pais estão aguardando por si em casa. - Voltei-me devagar e quando o nosso olhar se encontrou o meu coração parou de bater alguns segundos e perdi os sentidos" - passado tantos anos ainda sorríamos ao recordar o nosso primeiro encontro.
As noites de inverno eram as mais dificeis, mas enroscada, tapada com a manta de lã, de gorro, luvas, botas era ali que esperava, sempre, por ti. A primavera brindava o nosso olhar com um mar infinito de cores, mas era o Outono com a sua paleta de vermelhos, laranjas, castanhos que nos fazia sonhar e acreditar sempre no nosso amor.
"-Matilde, minha belíssima Matilde. - e sentia a tua mão acariciar a minha face, o meu cabelo, enquanto os teus lábios procuravam os meus, e quando se encontravam, deliciavam-se no beijo mais terno, suave, que ainda fazia o meu coração bater forte."
Mesmo quando a guerra chegou, e te vi partir para longe sem saber se um dia voltarias, era naquele pequeno templo das minhas noites, que pensava em ti, sonhava contigo e no meu íntimo, ainda esperava por ti. Esperei, esperei, esperei dias, meses, anos por ti.
A primavera chegou há dias. O mar florido mais uma vez presenteou o nosso canto, como um quadro de Monet. 
As flores estão dispostas pelas jarras, o livro do momento pousado na mesa, a porta encostada esperando a nossa entrada. O quarto minguante brinda-nos com a sua presença. Sento-me na poltrona à tua espera, ainda espero por ti.
Devo ter adormecido, pois a aurora já se faz anunciar. Ouço passos bem perto. Levanto-me, olho em volta mas não vejo ninguém. Seria imaginação? Um sonho? Volto-me e sentado na poltrona estás tu. Voltas-te! Meu Amor, finalmente voltas-te! Corro para ti. Ajoelho-me à tua frente. Não me estás a ver? Estou aqui! Vicente, estou aqui! Pouso a minha mão sobre a tua perna. Nada sinto!
Ajeitas as flores na jarra, um pequeno toque no livro, endireitando-o na mesa. Na mesa ao lado, espreitas a jarra para ver se tem água suficiente, encostas a porta do mesmo jeito que eu encostava. Sentas-te. Olhas para mim e não me vês. "Estou aqui, meu amor!"
Uma lágrima escorre. Encosto a minha mão na tua face, limpando as lágrimas que escorrem. A tua mão vem segurar a minha.
"-Minha bela Matilde, tenho tantas saudades tuas, meu amor. Sinto a tua falta. Porque partis-te tão cedo?"

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Anokas - I "Jared Followill" eheheh



Parabéns aos avós e à minha mãe!!

Continuas tão presente na minha vida, no meu ser.
Recordo quando fazias a barba de manhã e eu ficava a olhar para ti, a sorrir, a ver-te ficar bonito, com a pele macia, e sonhava que um dia quando casasse também gostaria de ver o meu marido a barbear-se.
As tuas mãos delgadas, sarapintadas com sardas como as minhas estão a ficar.
O teu sorriso quando vias a família toda junta.
A tua curiosidade pelos vários aparelhos modernos que iam aparecendo.
Sinto saudades tuas, sinto saudades dos nossos momentos sentados, tapadinhos, cheios de frio (nunca ninguém percebeu o nosso frio), de braços cruzados a ver televisão.
O teu orgulho na mulher que me tornei.
Partis-te cedo demais. Tanto que tínhamos para conversar, sorrir, festejar as vitórias no nosso Glorioso.
Sinto falta do teu cheiro.

Continuas a matriarca que sempre foste e ai de quem te contraria.
Tivemos as nossas zangas (havia alguém que dizia que nos dávamos mal, por temos o feitio igual), as nossas tristezas, as nossas alegrias.
Hoje em dia dizes a mesma conversa várias vezes e eu respondo-te como se a ouvisse a primeira vez.
Gosto de sentir as tuas mãos pequeninas, que um dia já foram bem gordinhas, acariciar as minhas.
Gosto de sentir o cheiro da tua casa.
Gosto de sentir o sabor do teu pão com manteiga e açucar.
Gosto de sentir o teu abraço, e hoje sou eu quem te protege no meu abraço.

Cada um há sua maneira, fez de mim a mulher que sou hoje.
Mais do que meus avós, vocês foram e são os meus pais.
E como um festejo nunca vem só.
PARABÉNS MÃE!!!
Hoje em dia também avó, eheh

Kings of quê??!!

Até hoje deveria ser a única pessoa a nível mundial e talvez em toda a galáxia, a pensar que os Kings of Leon era um grupo de meninos para aí com 60 anos.
Quando vi quem realmente são, fiquei de queixo caído!!
Como me passou este fenómeno ao lado durante este tempo todo?!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Internamento mais querido do mundo

Ainda não contei aqui a aventura do meu internamento.
Para mim hospital, só para trabalhar e já não é mau.
Entro de urgência numa sexta-feira quente, sufocante, mesmo já depois do sol posto.
Porque será que: mulher jovem, com dor de barriga tem quase obrigatoriamente que estar grávida?! Teste de gravidez negativo, à palpação há queixas aquando da palpação na fossa ilíaca direita (zona do apêndice), ecografia pélvica, normal; análises quase normais onde ressalta o valor de PCR (sinal de alguma infecção no organismo) alterado
Como não se chega a nenhuma conclusão (apendicectomia realizada há 15 anos) e como estamos no interior e não há médicos a pontapés, fico em observação e à espera para fazer uma TAC (tomografia axial computorizada) para saber onde realmente é a dor e a infecção.
Acordo (acordam-me todos os dias às 6:20h da manhã) muito nauseada e começa a minha romaria diária, nocturna a caminho da casa de banho (ficámos íntimas amigas - neste tempo que estive internada devo ter sido a pessoa que mais visitas lhe fez).
Informação clínica actualizada, uma infecção na trompa de Falópio à direita. Mas que raio de sítio para ter uma infecção. Cinco dias internada com antibiótico tipo bomba nuclear para a infecção baixar. Resultado, visitas e mais visitas ao wc, nauseada, enjoada e a vomitar tudo o que tinha e o que não tinha, só não saiu foi a porcaria da infecção pela boca.
Passado 15 dias de ter saído e feita nova reavaliação, a infecção ainda cá está, no mesmo sítio, do mesmo tamanho, a rir-se de mim.
Dia 31 vou fazer a análise que vai decidir a minha vida no talho. Ou sai uma barriguinha aberta e salpinge cá para fora, como se de uma cesariana se tratasse ou a salpinge cá fica a viver comigo eternamente como um karma, pior que marido.
Durante este tempo já voltei ao serviço de internamento a matar saudades da minha wc mais querida.

domingo, 21 de julho de 2013

Imagem retirada da net

Mais um amanhecer.
Aqui estou, distante da vida normal, distante de qualquer vida.
Enraizada nesta terra que me consome pouco a pouco, sugando o meu ser, consumindo a minha alma.
Neste lugar cavernoso fiz a minha casa, o meu lar. Despojado de tudo, sentimentos, alegrias, cor.
É aqui, neste mágico lugar onde a bruma me acompanha e envolve com o seu manto humedecido, onde as árvores fantasmagóricas me protegem, as folhas secas servem de leito, que estou em casa.
A ponte que une as duas margens, é percorrida vezes sem conta durante o dia. Por momentos, páro a meio, sustenho a respiração até não poder mais, exalando lentamente, expelindo todo o ar possivel, para inspirar bem fundo o ar bafio envolvente.
Quando o entardecer chega, e os pirilampos se juntam para me iluminar, aguardo. É por este momento que espero.
Hoje não te vi chegar. Apenas senti o teu abraço envolver o meu corpo, sentindo os teus lábios saboreando o meu pescoço. Fechei os olhos e deixei-me levar...

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Letras e números

CA 125.
Estas são as letras e números que irão acompanhar o meu pensamento durante os próximos dias.
Pensamento positivo!!!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Luar roubado

Imagem retirada da net
Brindas a minha noite com os teus raios cor de prata, brilhantes.
É na solidão do meu quarto que todos os desejos, sonhos, se tornam reais.
Deitada sobre a minha cama, o lençol envolve as minhas pernas, deixando o restante corpo desnudo. A noite está quente. O sono teima em chegar.
A mão desliza pela almofada, pelo lugar vazio que se encontra ao meu lado. Fecho os olhos tentando imaginar o teu corpo, o teu cheiro, aqui. Os braços agarram a almofada e deixo os lábios saborear um beijo imaginário...
Suavemente sinto a tua mão deslizar no meu corpo, passando a um toque possante que faz estremecer o meu ser.
Não quero abrir os olhos, quero continuar a sonhar, desejo, quero!
Envolves os meu corpo despido nos teus braços. Sinto o teu corpo quente, ardente, ardendo de paixão.
Saboreio os teus lábios, sentindo o teu beijo ofegante. Estou a sentir!
Não consigo fazer nada a não ser sentir, o teu toque, o teu corpo, o teu beijo, o teu desejo entrar dentro de mim.
Amas o meu corpo, enquanto o luar vai desenhando os nossos corpos envoltos pelas paredes, pelo chão.
É ele que te trás até mim.
O sol entra pela janela, acordando-me. Não quero olhar para o lado e ver a cama vazia. Lentamente a minha mão desliza pelo lençol vazio. Saio da cama, do quarto, deslizando o meu corpo pelo corredor escuro. Subo as estreitas escadas interiores, que me levam até ao sótão. Ao abrir o pequeno alçapão vejo o quarto minguante roubado na noite.
Sendo ele que te trás até mim, agora tenho-te tantas as vezes que desejo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Estar doente, dói!

Como seria bom chegar, sem nunca ter que partir.

Os últimos dias não têm sido bons. Depois de uma semana internada a perspectiva de operação ainda paira no ar e a dor continua. Aguardemos então até sexta-feira, dia do verídicto final.
Muitas ideias, muitos bilhetes escritos espalhados pela mala, um conto a tomar forma, mas sinto-me em baixo ainda.
Tive miminhos dos amigos, dos daqui, do facebook.
Saudades dos tempos em que conseguia publicar um post todos os dias.
Obrigado a quem me visita.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Parar o tempo

Gentilmente cedida por Dias Miguel

Queira fazer parar o tempo aqui, agora, neste momento para sempre.
Quantas são as noites que espero ansiosa por te conseguir ver, nem que seja lá longe no horizonte, como estás neste momento.
Inundas o céu com os teus cálidos raios, tocando possantemente as nuvens que teimam em atravessar o teu caminho, colocando-se entre nós.
Acordei à pouco sentindo a leve aragem que do teu ser exala enquanto avanço pela estrada solitária que percorro todas as noites.
Por vezes as estrelas saltitam entre si, tentando alegrar o meu mundo. 
Outras vezes, um meteoro mais distraído passa mais perto, deixando um raio de luz atrás de si. É nestas alturas que alguns mortais aproveitam para pedir um desejo, desejo esse que nunca se concretizará, mas que os faz acreditar no momento mágico. Também eu por vezes peço um desejo. O mesmo desejo desde que me conheço."Parar o tempo aqui e agora neste momento, poder avançar e com a minha luz abraçar os teus raios, chegar o mais perto de ti e sentir o teu beijo. Uma única vez!"
Mais uma vez o teu belíssimo crepúsculo presenteia a minha chegada com deleitoso espectáculo.
Envergonhada minguo, chorando lágrimas de prata que voam pelo universo

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Escondido pelos medos

  São Jorge na Floresta ou São Jorge e o Dragão (1510)
                                      Albrecht Altdorfer           
                                    Pinakothek, Munich

Por vezes o tempo passa tão rápido, tão rápido como o relampaguear que ilumina algumas das noites que têm passado pela minha vida solitária. Outras vezes lento como o passo do caracol.
Perdido, solitário, diria mesmo abandonado desta vida e de todas as outras que perdi em toda a minha existência. Minha alma vagueia pelo tempo, por lugares muitas vezes desconhecidos, sem no entanto nunca sair deste local onde me encontro. Um pequeno bosque, denso, que não me deixa visualizar outras paragens reais.
Certos dias sinto que me vigiam, que acompanham todos os meus passos, todos os meus delírios, gritos, anseios, desejos. Quem são? Não sei. O que são? Também não sei. Apenas sei que sinto o seu olhar penetrante pelo meu corpo.
Cavalgo calmamente sentindo a brisa fresca do final do dia que corre pela minha face. Sinto o olhar penetrante de novo, mas hoje, atacarei os meus medos e libertar-me-ei de todos os meus medos, todos os meus anseios.
De espada em punho, embrenho-me pelo espesso arvoredo procurando, quem me procura. Ao meu olhar surge um dragão. Um dragão que cresce ao meu medo. A luta adivinha-se feroz, perigosa. Fecho os olhos e sigo em frente. 
O combate termina com a espada trespassando o escamoso corpo.
Sinto o meu ser, a minha alma ficar leve. Pouco a pouco o dragão fica pequeno até desaparecer. Surge então uma pequena clareira, convidando-me a passar, descobrir o mundo, deixar para trás os meus medos.
Não olho para o que foi deixado atrás. Confiante, sigo em frente, aguardando novas batalhas.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Dia Mundial dos Refugiados

Hoje comemora-se o Dia Mundial dos Refugiados.

De olhar triste, olham as estrelas no céu
Sonham com a casa que ficou distante
Marejados olhos com lágrimas de saudade
Não merecem tanta crueldade

Observam ao longe a Terra que os viu nascer
Terra essa que os obrigou a fugir
Por ela desejam um dia voltar
Caminhar, seguir, e talvez nunca mais partir

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Oh meu Rico Santo António - Reeditado

Oh meu rico Santo António
Santinho da minha devoção
Não me arranjes já marido
Não me quero casar, não!

Roupa lavada e comida já prontinha
Todos querem de bom agrado
Mas ajudar aqui as meninas
É pior do que mau olhado!

No início tudo é bonito
Das flores, ao beijo "roubado"
Depressa esquecem os miminhos
E procuram outro achado

Nas noites de bailarico
Gosto da bela sardinha assada
Comprar uma rifa e sair um mangerico
E chegar a casa toda amassada

Mas a noite já passou
E o meu santinho que bem se comporta
Perto do meu coração
E homem longe da minha porta!

Primavera = Inverno

A neblina cerrada continua a inundar as minhas madrugadas.
Paisagens fantasmagóricas que envolvem o meu ser.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ser Bela dói

Sou tão bela, mas tão bela que até firo as vistas.
Por vezes, o descontrolo é tanto que me tentam atropelar
Assobios e piropos nem ouvi-los (será surdez?)
Passar à frente então, nem pensar!
"um copo de água, se faz favor!"
"olhe levante-se e vá buscar!"

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Frio Polar

Hoje o dia acordou cinzento, um vento desagradável, chuva na iminência de cair a qualquer momento.
Estamos a 29 de Maio. 29 de Maio??!! Não era para estar um calor descomunal, daqueles que nos faz transpirar até mais não, em que maldizemos o anúncio do desodorizante que diz que podemos andar activas durante 48h sem uma pinga de suor ou cheiro?!
Quando saí para mais um dia de labuta, senti que deveria ter vestido outra roupita mais aconchegante e quem sabe voltar ao casaco de Inverno.
Porra, está um frio do caraças!

terça-feira, 28 de maio de 2013

Punk is not dead!!!

                                                               Miley Cyrus - MET 2013
                                                               Madonna - MET 2013
                                                              Nina Dobrev - MET 2013
                                                          Anne Hathaway - MET 2013
                                                           Kristen Stewart - MET 2013
                                                             Sienna Miller - MET 2013
                                                        Donatella Versace - MET 2013
                                                           Julie Macklowe - MET 2013
Modelos que era bem capaz de vestir.
                                                              Adoro esta cor de baton
   Olhos esfumados, que ainda ando a aprender a fazer. Maquilhagem e eu não combina muito bem, eheh.

Gosto destas! As de cima para uma ocasião especial, as de baixo para o dia a dia

A roupa é simplesmente fantástica. Muito do meu agrado, mesmo os modelos masculinos.
Punk is not dead e está na moda este ano.
Em termos musicais, em Portugal, temos ou tivemos: Censurados, Mata-Ratos, Mão Morta, Peste & Sida; a nível internacional: Iggy Pop, My Chemical Romance, Ramones, Ratos do Porão, Sex Pistols, Siouxsie & the Banshees, The Clash, The Offspring, Joy Division, The Cure, Echo & the Bunnymen, The Jesus and Mary Chain, Nick Cave and the Bad Seeds, The Smiths, etc.
Estas as minhas preferências!

sábado, 25 de maio de 2013

Revista Plátano - Lançamento

Café Alentejano - o palco da cerimónia

O céu azul presenteou o dia 22 como um verdadeiro dia de Primavera, como não se tem visto este ano.
Já passava um pouco das 17:30h quando se deu início à cerimónia com a interpretação musical de Vera Soldado de dois poemas de Fernando Correia Pina.

Mário Casa Nova Martins, Director da Plátano - Revista de Arte e Crítica de Portalegre, o grande impulsionador desta iniciativa e em angariar colaboradores.
Da mesa fazem parte, e da esquerda para a direita, Olga Ribeiro - Conselho Editorial, Avelino Bento - Conselho Editorial, Maria Adelaide Teixeira - Presidente da Câmara Municipal de Portalegre e claro, Mário Casa Nova Martins.

Alguns do presentes na sala emblemática de um café que se recusa em modernizar e ainda bem. Entrar nesta sala é como entrar nos anos 50, 60. As mesas, as cadeiras, os sofás, os espelhos criam uma atmosfera mágica.
Um dos momentos de poesia, declamada por Olga Ribeiro.

Isabel Corte Real e o seu "Portalegre está de luto", mais um momento de poesia.
E porque não convidar a plateia a recordar momentos da sua vida naquele mesmo café??
Manuel Morujo tem muitos momentos vividos ali, uma vez que morava a menos de 20 metros, mais tarde, na altura do liceu. Estórias de vida, de gente, de grande escritores como José Régio que por ali também passava.
Aqueles sofás vermelhos têm muita história e o boneco lá atrás, se falasse... eheh
Outro momento de confidências, desta vez, do sr. Padre Américo, também ele um Portalegrense adoptado.
A capa da revista.

O meu conto, com ilustração da minha amiga Mané

E para acabar, o painel com imagens de trabalho no campo do nosso Alentejo, um dos "ex-libris" do café Alentejano.
Foi uma tarde bem passada com sala cheia, como alguns fizeram questão de mencionar, como há muitos anos atrás.
Das poucas recordações que tenho daquele espaço, uma delas inclui sem dúvida o meu avô.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Revista Plátano - O Conto



Envolta na Bruma

“-Vá lá Matilde, só desta vez!”
Mais uma vez as colegas a conspirar contra ela. Sempre a quererem arranjar-lhe namorado; o primo da vizinha, o amigo da prima, o irmão da senhora da loja de bijuteria, tantos que já lhes tinha perdido o conto. Eles bem se esforçavam para lhe agradar, mas não valia a pena. Ela não pensava encontrar o seu príncipe encantado assim.
Por vezes ela dizia-lhes: “…sem esperar, ele vai aparecer numa noite em que a bruma descer sobre a cidade, e quando o nosso olhar se encontrar, eu saberei!”, e as amigas riam com o discurso da paixão imaginária.
“-Está frio! Já viram como o tempo se está a pôr?”
“-No restaurante não está frio.”
“-Está bem! Está bem! Irei ter com vocês às 20h. Que aborrecidas!
Voltou-se para a janela e observou o tempo lá fora. O dia cinzento, por vezes negro como breu, o nevoeiro intenso e a chuva miudinha que caía desde manhã. O vento soprava, por vezes forte, outras como um toque suave de uma pena gelada. Um dia de Inverno.
“ Um Inverno como não se via há muito na cidade. Pelo menos era o que ouvia aos mais velhos sentados no Jardim do Tarro, ou mesmo àqueles que a meio da tarde bebericavam o café, um bagaço ou um copo de vinho, no café.
Perde-se a ver a paisagem. A sua mente vai além do que o parque de estacionamento em frente, ou o “muro” de prédios que bloqueiam a sua visão. Por vezes parte para longe. A sua alma viaja pelo tempo, levando-a por sítios onde nunca esteve, fazendo-a sorrir. Outras vezes a viagem é por perto, com pessoas do dia-a-dia, conversas que se interligam em espaços confusos.
“-Até logo!” – a voz da colega que se despede, acorda-a dos seus pensamentos.
“-Sim. Desculpa. Até logo!”
Olha em frente e embrenha-se no trabalho até à hora de saída.
Ainda chove quando sai. Abotoa o casaco, segura na mala e abre a porta. A aragem fria que lhe toca a face, enregela-a, assim como as pingas que molham o rosto. A seu lado, alguns colegas apressam o passo, outros debaixo dos guardas chuvas e olham-na espantados. Desde sempre gostara de andar à chuva, e de sentir as gotas cair na face, escorrendo, gelada.
Ao sentar-se no carro, sorri.
“-Talvez ligue a desmarcar o encontro.”
Um sentimento estranho percorreu o seu corpo e nesse momento o seu pensamento voa para longe. Ouve o som de uns sinos e alguém chamar  “Vicente”. O rádio acende e a música acorda-a daquele sonho. “-Que estranho!”
Ao início da noite ainda continua a chover, a neblina está ainda mais cerrada, não deixando ver tão bem a estrada em frente. Vai devagar. Não há lugar no estacionamento perto do restaurante, a solução encontra-a perto da antiga moagem e segue a pé.
Mais uma vez o jantar não correra bem. Quer dizer, para ela corre sempre bem, por vezes chega a ter pena dos esforços e figuras tristes que os pretensos pretendentes fazem.
“-Não quer companhia até ao carro?”
“-Não é preciso o carro está aqui perto.”
“-Não te vamos deixar ir sozinha.”
“-Vou a correr, não se preocupem. Está mesmo aqui ao lado e ainda é cedo.”
Depois da despedida sai sozinha do restaurante.
Continua a chover e a bruma é intensa. A famosa Rua Direita com as suas luzes fantasmagóricas assustam qualquer um. Uma rua tão diferente da que foi noutros tempos. O comércio resistente a esta crise com tanta dificuldade de seguir em frente, em arranjar chamariz aos lagóias de carteira vazia.
Encontra-se tão embrenhada nos pensamentos que nem repara que, um pouco atrás, três jovens conversam sobre a sua passagem e a seguem. Um pontapé numa lata denuncia os perseguidores, fazendo com que Matilde se volte devagar e se aperceba do que se passa.
“-Para que lado vou? Se seguir para baixo até à Fonte Nova, eles conseguem alcançar-me antes que chegue ao carro. Se ligar a pedir ajuda, já não chegam a tempo.”
Encontrava-se embrenhada nestes pensamentos, quando o seu olhar encontra o Antigo Palacete dos Condes de Castelo Branco, onde actualmente está o museu de Tapeçaria Guy Fino. Pensa logo no novo jardim junto à muralha e que se correr um pouco chegará rapidamente ao carro.
O corpo vira-se em direção ao Palacete, os seus passos aceleram um pouco. Sente o frio na sua face, a neblina cerrada envolve-a como se fosse envolvida por um abraço protector. Ao voltar-se para o lado do jardim, o seu olhar “morre” no portão fechado.
“-Faz com que esteja aberto! Por favor!”. Todo o seu corpo desfalece quando as mãos tentam empurrar o portão e este não abre. Tacteia o portão, tentando encontrar a fechadura, a tranca. O rosto encosta-se às grades tentando passar através delas. Atrás, ouve os passos dos seus perseguidores, agora mais perto.
O nevoeiro cerrado não a deixa distinguir quem se aproxima, mas consegue ouvir as vozes, os risos e os passos cada vez mais perto. Volta-se para eles, aguardando-os. O seu corpo tenta fundir-se com o portão. Lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto. Cerra os olhos. Não quer nem ver quem a persegue.
De repente, sente o corpo, sem o apoio do portão, e ser puxado por alguém. Alguém a abraça suavemente. Não consegue abrir os olhos, não consegue gritar. O abraço aquece o seu corpo gelado, fazendo-a acalmar.
“-Será que morri?” – pensa, um pouco confusa.
Aos poucos abre os olhos e em frente a si, encontra os três homens que a perseguiam. O seu corpo estremece com o medo. Os braços que a abraçam, apertam-na um pouco, como se quisessem dizer para ficar quieta.
“-Para onde foi? É impossível ter-se evaporado.”
“-O portão está fechado. Por aqui ninguém passou. Será que a viste vir para este lado? Com o nevoeiro que está podemos ter-nos confundido.”
“-Vamos embora!”
Como era possível estar frente e frente com os seus perseguidores e eles não a verem? Como teria passado pelo portão fechado?
Viu os perseguidores voltarem-se e seguirem pelo caminho que ela mesmo tinha feito. Gradualmente foi ouvindo os passos cada vez mais longe. Agora chegava a hora de ver quem a segurava. O seu coração bombeava o sangue tão rápido, que sentia esse batimento forte bem perto na sua garganta. O corpo estava sem força, não sabia o que ia encontrar e o medo tinha-a paralisado.
O abraço forte que a segurava, foi-se despegando lentamente. Sentiu alguém atrás de si. Tinha tanto medo de se voltar.
“-Nada temei, minha senhora” – o som daquelas palavras fizeram o seu corpo acalmar e aos poucos o medo começou a passar. Lentamente, voltou-se.
Não queria acreditar no que se encontrava à sua frente. Um homem, isso tinha a certeza pelo aspecto da barba por fazer. Um homem vestido de guerreiro, como se o Carnaval ainda não tivesse acabado. A roupa era de couro, reforçada por placas metálicas, brafoneiras e caneleiras e um capuz de malha metálica. Na mão um escudo circular de madeira, também revestido com placas de ferro e, para completar a indumentária, punhais e outras armas de que nem sabia o nome. Neste momento não sabia muito bem se estaria em segurança. Recuou um pouco.
“-Quem és?” – perguntou, a medo.
“-O meu nome é D. Vicente de Barbosa, filho de D. Fernão Pires de Barbosa, tenente de Vizela, nobre ao serviço de meu senhor el rei D. Dinis, e do seu irmão D. Afonso, senhor de Portalegre minha senhora.”
“-O quê?”- de certeza que tinha morrido e ido para um lugar entre o céu e o inferno. Começou a andar de um lado para ou outro, sem saber se assustada pela presença de estranha criatura, se por não saber o que lhe teria acontecido. O seu pensamento recuou um pouco e visualizou todo o trajecto desde a saída do restaurante até ao portão.
“-O portão!”
Encaminhou-se para ele e encontrou-o fechado. Como teria ela passado por ele? Continuava a chover. O céu escuro e o nevoeiro que descia pela encosta da serra, dançavam com as luzes uma dança maravilhosa. D.Vicente encaminhou-a por umas escadas, passaram pelo passadiço no pequeníssimo lago e sentaram-se perto da fonte. Matilde começou a chorar.
 “-Como pode tão linda donzela deixar o espelho da alma mostrar seus segredos?” e sentou-se perto de Matilde.
O olhar dela subiu devagar até encontrar o olhar de D.Vicente. Um olhar meigo, calmo que transmitia segurança, um olhar que tocou o seu coração.
“-Nada temei, não vos vou fazer mal. Já há muitos anos que não falava com viv’alma, que não via ninguém, minha senhora.”
“-Esteve preso? E porque está vestido dessa maneira?”
“-Preso no tempo, preso por amor.”
Matilde sentiu o seu coração parar de bater por breves segundos. Aquele olhar ficou preso ao seu. Ali estava o seu príncipe encantado e como ela sempre disse, ele chegou numa noite em que a bruma desceu sobre a cidade.
“- Corria o ano de 1299, da graça de D. Dinis, El-Rei de Portugal e do Algarve. Meu pai encontrava-se ao serviço de D. Dinis e eu ao serviço de seu irmão D.Afonso, senhor de Portalegre. Eram poucos os nobres que lutavam ao lado de D.Dinis.”
“-Você está a brincar, não está?”
“-Minha senhora, não ouso enganar vossa senhoria.”
“-O que estava a acontecer?”, pensou Matilde, preocupada, encaminhando-se para perto da muralha, sendo seguida por D.Vicente, que continuava a falar:
“-O cerco durava a algumas semanas. D. Afonso não queria deixar a vila, tinha o apoio do povo e de alguns nobres que D.Dinis não soube acarinhar, tratando-os arrogantemente, principalmente a nobreza de corte, deixando desaparecer as principais linhagens, não as substituindo, extinguindo as tenências, entre outras medidas pouco convencionais para um rei. Preocupava-se mais com os versos. Contudo D. Dinis foi recuperando quase todos os senhorios detidos por D. Afonso.”
Matilde olhava para D.Vicente enternecida. Por muito que lhe custasse acreditar no que estava a acontecer, quando D.Vicente segurou a sua mão e a encaminhou para a torre, o toque dessa mão era bem real.
“-Era daqui que avistava as tropas inimigas, muitos conhecidos, mas divididos nesta luta entre o seu rei e o seu senhor. Jurei defender o meu posto até à morte.”
“-Este cerco de que fala, durou quanto tempo?”
 Lembrou-se, um pouco envergonhada, que deveria ter prestado mais atenção nas aulas de História.
“-Cerca de cinco meses, ocupando grande parte do tempo quente. Portalegre sempre foi uma vila quente, até as noites.”
Ao chegarem no cimo da torre, avistaram o que a bruma deixava, descendo pela encosta da serra, envolvendo a cidade, passando pela Serra da Penha, indo morrer na zona da estação.
D.Vicente contemplava a cidade como se fosse a primeira vez, mas pelo que dizia já ali andava há 700 anos. Seria isso possível?
“-Foi então que vi a mais bela donzela de todo o reino. Tentando acabar novamente com a guerra entre os dois irmãos, como já tinha acontecido em Arronches, em 1286, D.Beatriz de Castela, mãe dos infantes, D.Isabel de Portugal e D. Maria de Castela chegam a Portalegre para falar com D. Afonso. Com D. Isabel de Portugal, vinha a Belíssima Sofia, uma de suas aias. Quando o nosso olhar se encontrou, o meu coração parou de bater, nunca tinha visto tão bela donzela. Com o meu ser, jurei-lhe amor eterno. Os poucos dias que nos encontrámos valeram por semanas, meses, anos. Enquanto D. Isabel, D.Beatriz e D.Maria falavam com D. Afonso tentando apaziguar a guerra entre os dois irmãos, eu mostrava a vila a tão bela donzela, Belíssima Sofia. A atalaia mais alta onde a vista se perdia no horizonte, o pôr do sol quente do Alentejo. Apaixonámo-nos perdidamente.”
Matilde não conseguia deixar de olhar para D.Vicente, imaginando-se num filme medieval.
“-No dia em que partiu, jurei-lhe que ao findar da batalha, iria ter com ela a Lisboa. Já tinha falado com meu senhor, D. Afonso, que me prometera dispensar uns dias. Desde que a tinha visto pela primeira vez, à noite escrevia-lhe pequenas cartas de amor. Guardei-as e no momento da despedida, entreguei-lhas. Ousei beijar suas mãos delicadas, formosas, jurando-lhe amor eterno, entre lágrimas.”
Suspirou, e continuou:
“Após a sua partida, viveram-se dias complicados, de grande tensão. D. Afonso recuou no decidido com sua mãe, e após uma longa batalha, as tropas de D. Dinis entraram em Portalegre. Ao saber disso, D.Afonso foge, deixando muitos dos seus defensores para trás. Não houve misericórdia para os inimigos. Jurando defender a minha torre, lutei por D. Afonso fugitivo. Vendo-me cercado, soube que ia morrer. Mesmo sendo meu pai um rico-homem ao serviço de D. Dinis, não houve misericórdia para o seu varão. Ao descer essas mesmas escadas (apontava para as escadas atrás deles), jurei amor eterno à Belíssima Sofia, e com as lágrimas a escorrer pelo meu rosto por saber que nunca mais veria tão bela donzela, lutei até a última adaga trespassar o meu corpo, tirando-me a vida.”
 D.Vicente calou-se, a sua mão deslizou para perto do seu coração, e uma mancha de sangue apareceu. O rosto voltou-se para o horizonte, e o silêncio desceu sobre eles, como a bruma.
Matilde visualizou toda a história na sua cabeça uma vez mais. Ali à sua frente, estava um homem com 700 anos que morreu a lutar no que acreditava, a lutar por um fugitivo, jurando amor eterno à sua donzela. Chegou-se perto de D.Vicente, a sua mão tocou a dele, olharam-se, abraçaram-se e ali ficaram no cimo da torre. Fechou os olhos. Ao longe ouviu uns sinos tocar.
“-Belíssima Sofia, eu sabia que te iria encontrar outra vez.”
Quando abriu os olhos, encontrava-se deitada em sua cama, enrolada nos lençóis. Sentou-se, olhando em redor. O relógio marcava 6:45h da manhã, hora de acordar para mais um dia de trabalho. Teria sido um sonho? Tinha sido tão real!
Após o duche, olhou-se no espelho e pensou em como seria a Belíssima Sofia. Pensou em D.Vicente.
No caminho para o serviço, ao passar pela torre, parou o carro e encaminhou-se para lá. Subiu as poucas escadas, olhou o pequeno jardim à direita, passou por baixo da muralha e encaminhou-se à torre. Ao subir os degraus, sentiu o coração bater mais forte, olhou em volta tentando ver D.Vicente. Teria sido um sonho?
Olhou novamente em todas as direções, sorriu e começou a descer as escadas. Ao chegar à última, olhou para o lado e encontrou um pedaço de papel preso entre as pedras, na parede. Pegou nele mas não conseguiu ver o que era. Correu até ao carro e seguiu para o serviço.
Ao entrar, deparou-se-lhe alguma confusão por causa da chegada no novo gestor.
“-Matilde, esqueceste-te!?”-
Tinha-se esquecido, mas agora já era tarde.
“-Não esqueci. Dormi mal e nem tive tempo de me arranjar.”
“-Deixa já não há nada a fazer.”
Colocou-se ao lado da colega para receber a comitiva da direção.
O seu olhar prendia-se no pedaço de papel que tinha retirado da torre. Nem deu pela chegada das chefias à sala. Quando a colega a beliscou para ela estar com atenção, o papel caiu no chão. Alguém se baixou para o apanhar e, quando o entrega a Matilde, ela fica pasmada com o olhar e a face que está à sua frente.
“-Creio que seja seu, Belíssima Matilde!”