Que sensação estranha ao acordar.
Como que por magia, a responsabilidade, a pressa, a pressão do trabalho, passaram.
A vontade de correr, pular, gritar, rodopiar, subir às árvores, enfim, brincar, voltou!
O cheiro das giestas que circundam Portalegre, dos malmequeres, das papoilas já não me fazem mal.
Visto uma roupa qualquer e saío para a rua. O tanque de lavar roupa, no quintal da avó está cheio de água. Mergulho os meus braços nele, chegando a água quase ao pescoço, eheh, molhei as mangas da t-shirt, aiai. Não faz mal, enxuga ao ar. Vejo o meu rosto no reflexo da água, sorrio, os meus olhos sorriem.
Subo as escadas e corro pela rua abaixo aos pontapés às pedras, a passar as mãos pelas paredes caiadas de branco. "Carla, não faças isso que sujas as paredes às vizinhas!" - parece que ouço a minha avó gritar ao longe.
Perto da casa do sr. Salgueiro, páro. Tenho medo dos cães que por vezes ali andam e que já correram atrás de mim dezenas de vezes. O quintal da vizinha Domingas, mais propriamente a terra perto das roseiras tem sido a minha safa, quando ao fugir deles lá aterro. Nenhum! Podemos seguir!
Chego perto da casa da Adélia. A porta aberta de par em par para deixar entrar o fresco da manhã. Cheira a sabão da roupa lavada que se encontra no alguidar para estender. Entro.
-Bom dia!
-Olha a Carlota Pires Dacosta! Logo de manhã, por aqui? (Agora já sabem de onde vem o nome)
-Vou brincar para o adro.
-Queres pão com manteiga?
-Sim pode ser. E com açucar também!
Hum, que vontade de comer pão com manteiga e açucar, neste momento. Cada dentada no pão, lambuça a minha boca de manteiga, que tento lamber até ao último pedaço.
Sorrio e volto de novo ao meu caminho.
Se a avó sabe que comi, de novo na casa da Adélia, ralha comigo. Mas não faz mal, eu como lá todos os dias e ela muitas vezes não sabe, pois a Adélia é minha amiga e já me disse que não lhe conta. O pior é a vizinha, a Diamantina que tem o quintal que dá para casa da minha avó. Quando sabe que estou na casa da Adélia, está sempre a gritar para a minha avó: "Oh Zé, a tua neta está de novo a comer na casa da Adélia!"- Não gosto da Diamantina, tem ar de bruxa, e deve ser mesmo, pois quando os nossos olhos se encontram fico doente, por isso fujo dela.
O adro da igreja da Senhora Santa Ana.
Dois terraços em terra batida com oliveiras, dois muros - o primeiro circunda a igreja e um mais largo que circunda este e que dá para a estrada, com uma altura de três metros.
A avó diz que é perigoso, mas eu gosto de brincar ali. Dá para jogar à bola, ao berlinde, fazer casinhas, subir às árvores, ou simplesmente estar sentada a ver quem passa, ou olhar lá longe a Serra da Penha, a Igreja da Sé, a Estação, ou o horizonte a perder de vista.
Subo para a minha "nave" e hoje é dia de defender a minha tripulação. Só acabo a "minha" guerra quando ouço a minha avó a chamar-me. Salto para o chão e corro até casa. Subo o muro que passa pela horta da Igreja e corro até uma encosta que me leva perto de casa. Quando a avó chama, é para ir rápido, por isso vou a corta-mato.
-Vou à cidade, queres vir?
A "cidade" fica a 200metros do sítio onde me encontro, mas a escassez de casas nesse caminho faz parecer que estou looonge da cidade.
Depressa lavo a cara, as mãos, penteio-me, visto outra camisa e lá vou eu.Ai, os livros da biblioteca! Pego na sacola e lá vou eu com a minha avó. Sinto-me importante quando vou com a minha avó à cidade. Ela conhece toda a gente, e toda a gente me fala também. Mas acompanhar a minha avó parece uma corrida de Fórmula 1, ela não anda, ela voa.
Passamos pela Câmara Municipal. Vou ver se o meu avô lá está para lhe dar um beijinho. Quando lá vou, falo também aos colegas dele.
-Aqui vem a minha Carla com os seus livros. Gosta muito de ler. Um dia, ainda escreve um livro! Tem mãos de habilidosa, dedos esguios. - e lá mostro eu, pela milésima vez as mãos. "Que sorte tê-las lavado!"
Quando dali saío, sigo para a biblioteca. Hoje não devo demorar muito, a D. Emília já me guardou o livro que quero. Não devia ser assim, mas ela guarda-me alguns livros que sabe que gosto, pois sabe que os trato sempre bem e por isso me faz estes miminhos.
O caminho para casa já é feito com a sacola dos livros a tira colo e os sacos das compras nas mãos. A avó não carrega muito os sacos, mas eu gosto de a ajudar.
Já não penso em mais nada a não ser, estar deitada, debaixo da videira, sentir o sol passar por entre as folhas, um copo de groselha ao meu lado para ir bebendo, ou uma taça de cerejas, e deixar a minha imaginação voar com a heroína da história.
Quando está mais calor, às vezes deixo-me dormir a ler o livro. Acordo quando tem que ser ou com alguma formiga a picar-me.
Quando a noite chega, já tenho o livro lido. Estou cansada!
Já deitada, sinto o calor entrar pela janela, os grilos a cantar, o céu estrelado e fecho os olhos.
Que bom ser criança, de novo!!
Esta história faz parte do passatempo do blog "A Turista Acidental".
Serve também para lembrar mais um Dia da Criança. A criança que eu fui, o recordar um dos muitos dias da minha infância, dos muitos dias de Verão que passava em casa, em Portalegre.