Galatea de las Esferas - Salvador Dalí
(1952)
(continuação)
"José"
Nos últimos dias tinha reparado que Maria não estava bem. Mesmo com os miúdos andava um pouco mais irritada. O dia a dia da casa, os míudos, deixavam-lhe pouco tempo para si. Mesmo a leitura de que gostava muito era feita pelas altas horas da madrugada. Continuava linda como no dia em que tinham casado e nem o nascimento dos três filhos lhe tinha retirado a figura esbelta de outros tempos.
Sabia que a enorme diferença de idades tinha sido um obstáculo no início, mas com o tempo foram sabendo contornar essa diferença.
Ainda se recorda do primeiro dia em que a tinha visto. Tinha chegado de África à poucos dias. A guerra tinha destruído tudo de bom que existia. Agora só pensava em regressar a casa, para junto de seus pais e tentar ser feliz. Como se isso fosse possível, depois de tudo o que tinha passado, visto e vivido.
Durante a guerra e na altura em que os confrontos eram mais intensos, fechava os olhos e via um riacho, via uma carinha a olhar para si, um rosto de criança. E era aquele rosto, a tentativa de um dia o ver realmente que o fazia acreditar que iria sair dali com vida. Que iria voltar à terra. Sempre pensou que aquele rosto, seria o rosto de um filho seu.
Vira tantos camaradas seus sucumbir mesmo ao seu lado. Alguns ficavam ali, assim, sós, abandonados. Poder-se-ia voltar mais tarde para os conseguir sepultar . Outros ainda dava tempo de os levar, para serem entregues às famílias em Portugal.
Durantes anos o martírio da guerra ofuscou a sua alegria, a sua vida, a sua alma. Aos poucos sentiu morrer o seu interior.
Chegou a Portugal. E esse Portugal que deixara anos antes, não era o mesmo que encontrava.
Durante algum tempo tinha trocado alguns aerogramas com uma moça. Era ela que fazia a ligação entre o Portugal que conhecera e que queria lembrar naquela região árida, bárbara.
Pensava que seria ela a mãe dos seus filhos, a mãe daquela carinha que para si olhava perto do riacho.
Que tolo, que parvo ao pensar que ela estaria à sua espera. De facto, até estava, mas acompanhada pelo respectivo namorado que, vim a saber que era muitas vezes quem ditava o que ela escrevia, e eu a pensar que estaria à minha espera.
Decidi ir para a terra o mais rápido que pudesse. Queria refugiar-me. Refugiar-me nos campos que conhecia, nas gentes que conhecia, na terra, na noite, no ar, no cheiro da minha juventude.
A viagem na camioneta era cansativa, mas naquele dia "bebia" todas as paisagens, todas as searas, todas as árvores, todos os caminhos que me levavam a casa.
Saí um pouco antes, e fiz o resto do caminho a pé.
Ouvi o riacho a correr e encaminhei-me para uma das várias entradas que tinha. Parecia mais belo do que noutros tempos. Estava ali o riacho dos meus sonhos, dos meus desejos.
As lágrimas teimaram em sair descontroladamente. Era ali! Estava ali! Em casa. Finalmente em casa. Só faltava o rosto.
Ouvi uns passos e voltei-me!
Pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, caminhava uma menina.
Quando os nossos olhos se encontraram, vi o rosto com o qual tantas vezes sonhara.
Ela existe! Ela existe!
(continua)