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terça-feira, 17 de maio de 2011

Um Delírio IX

"O Beijo" (1907/08), ou "Der Kuss", de Gustav Klimt, baseado em si mesmo e na sua amante Emilie, a mulher fatal aparece submissa, comunica uma sexualidade latente. "O Beijo" constitui o auge do período dourado e torna-se o emblema da Secessão.

(continuação)


O meu primeiro beijo!! Estava a ser beijada pela primeira vez.

Quantas vezes tinha sonhado com aquele momento. Quantas vezes tentei imaginar a cara à qual os meus lábios se juntavam. Tantos livros que lera, tantos momentos especiais que "presenciei"entre personagens românticas e nada era igual ao que estava a sentir neste preciso momento.

José. Era dele o rosto que tanta vez atormentava o meu descanso durante a noite. Desde que o vira pela primeira vez junto ao riacho, nunca mais o tinha esquecido. Por vezes dava por mim a sonhar acordada. No entanto ele era mais velho que eu, da idade dos meus pais. Era impossível! Impossível uma ligação assim. Ele nunca olharia para mim com desejo, com paixão, com amor. Para ele seria sempre a pequena Maria.

No entanto estavámos ali. No riacho. A beijarmo-nos.

Neste momento não pensava em mais nada. Não havia a diferença de idades, não havia o filho da vizinha, não havia mais ninguém a não sermos nós.

Os meus lábios correspondiam ao movimento dos seus. Fechei os olhos. Não queria que este momento acabasse.

Suavemente senti os seus lábios afastarem-se um pouco. A sua mão acariciou o meu rosto.

Quando os meus olhos se abriram, encontraram os seus. O seu olhar! Através do seu olhar vi dor. Tanta dor! Encostei a minha cabeça no seu tronco.

"- Desculpa Maria."


(continua)

sábado, 16 de abril de 2011

Um Delírio VIII

Beijo
(Edith Blin 1891/1983))

(continuação)

"-O que encontraste?" - perguntei."-Deixa. Um dia conto-te."As nossas mãos continuavam juntas. Por mais estranho que parecesse eu estar de mãos dadas com um desconhecido, que teria idade para ser meu pai, eu sentia-me confortável.
Os seus olhos deixaram de estar tristes. Através deles senti uma calma como nunca tinha sentido.
"-José! Filho! Chegaste!" - gritou Jacinta.
Correu até junto do filho. Abraçaram-se. José elevou sua mãe no ar, deixando-a um pouco sem jeito. Os seus olhos brilhavam de alegria e pequenas lágrimas teimaram em sair. Aquelas duas caras deixavam transparecer um misto de alegria, saudade e dor, profunda dor pelo afastamento dos últimos anos.
"-Maria, estás aí, filha?"
"- Sim D. Jacinta." - respondi com receio de estar a incomodar aquele encontro.
"- Anda conhecer o meu José!"
"- Mãe, deixe a miúda! Nós encontrámo-nos à pouco no riacho. Estávamos a colocar a conversa em dia." - disse piscando-me o olho.

Os dias foram passando normalmente.
Por vezes, via o José passar ao longe. A minha mãe tinha dito que ele sofrera um grande desgosto. Por vezes via-a conversar com a D. Jacinta, mas como diziam que era conversa de adultos afastava-me sempre um pouco.
Os meses foram passando.
Por vezes, encontrava José perto do riacho, a chorar. Queria chegar perto e confortá-lo., mas ao sentir a minha presença, levantava-se e ia embora.
Um dia ao chegar a casa, vi a minha mãe à porta a chorar.
"- Mãe, que se passa? Porque chora?" - perguntei um pouco assustada.
"- É o teu pai, filha. Já não vai para novo."
Passei a porta da rua, entrei e vi o meu pai deitado na cama. O dr. Jorge encontrava-se a seu lado.
"- Dr. o que tem meu pai?"
"- Maria, filha vai lá para fora, deixa o dr. trabalhar descansado!" disse com uma voz tão fina, tão sumida, como se estivesse longe, tão longe.
O dr. Jorge olhou para mim. Com os seus olhos, fez sinal para me retirar.
Amuei. Não queria sair dali. Queria saber o que se passava.
"-Maria, já te disse, sai! É uma ordem!" disse em tom enfurecido.
Eu não ia sair, queria ver o que se estava a passar.
Senti uma mão agarrar a minha. A outra tocou o meu ombro. Estremeci. Conhecia aquele toque. Tinha-o sentido já a alguns anos.
"- Maria vem comigo!" - disse uma voz tão meiga, que me fez voltar a cabeça. Eu conhecia aquela voz. José. Só poderia ser o José.
Os meus olhos ficaram presos ao seu olhar. Senti a sua mão puxar-me. Levou-me para fora de casa. Andámos alguns metros, quilómetros, nem sei.
Chegamos perto do riacho onde nos tínhamos encontrado a primeira vez.
Os anos tinham passado por nós. Estava a poucos meses de fazer 15 anos.
Parámos. José voltou-se para mim. Ficámos de mãos dadas, bem perto um do outro. Os nossos olhos tentavam ver bem dentro um do outro. Vi desejo, vi amor, vi paixão naquele olhar que pouco a pouco ficava bem perto do meu. Fechei os meus olhos. Senti a mão de José acariciar a minha face. Senti a sua respiração tão perto, tão perto.
Senti os seus lábios encostar nos meus. Ardentes, quentes. Deixei-me ficar. Aos poucos senti o meu corpo ser envolvido pelos seus braços.

(continua)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Um Delírio VII

A Primavera (Monet) 1886

(continuação)

"- Olá! À pouco, deixaste a sacola perto do riacho." - disse, fazendo um esforço em sorrir.
"-Obrigado." - respondi a medo. "- Chamo-me José. Sou filho do Manuel e da Luísa." - neste momento os seus olhos brilharam.
Gostava de observar as pessoas, ver as suas reacções, as suas caras, por vezes divertidas, quando falavam. O olhar. Conseguia perceber, só pelo olhar, se uma pessoa estava a mentir. A Mariazinha, quando mentia, percebia-se sempre. Os seus olhos pareciam luzinhas a piscar. O Zé Traquitanas, quando não queria mais conversa, assobiava. Eram pequenas coisas, que às outras pessoas passavam despercebidas, mas nas quais eu tomava sempre atenção.
Assim como aquele rosto, que naquele momento ali estava à minha frente. Os seus olhos brilharam de alegria ao falar dos seus pais. Mas quando o encontrei, perto do riacho, os seus olhos estavam tristes, "vi" a sua alma tão triste.
"- Olá, eu sou a Maria."- Agora já não tinha medo daquele senhor. Levantei-me e estendi a minha pequena mão para o cumprimentar.
Quando as nossas mãos se tocaram, arrepiei-me. Senti dor, perda, tristeza. O seu olhar ao encontrar o meu, ficou "calmo". "- Encontrei-te!" - disse José, sussurando.
O que teria encontrado José? Eu não estava perdida. Seria por causa dos livros?!
(continua)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um Delírio VI

Peder Mork Monsted

(Continuação)


A porta fechou-se com violência
Voltei-me rapidamente.
José encontrava-se à minha frente.
Recordei a primeira vez que nos vimos.

Tinha pouco mais de 10, 11 anos quando conheci o José.
Era uma altura em que nada me fazia mais feliz do que ler, brincar, descobrir. Os livros da biblioteca itinerante, as brincadeiras solitárias, as descobertas pelos caminhos até à aldeia.
Fora numa dessas viagens imaginárias que o vi pela primeira vez.
O sol, queimava-me a pele. "O verão, este ano, está mais quente do que o habitual" - ouvira dizer a meu pai tantas vezes.
O vestido às florinhas azuis tinha sido prenda da madrinha e o dia da visita do sr. Meireles era o dia ideal para o estrear. A mãe não queria que chegasse tarde. A D.Luísa tinha-nos convidado para lá ir jantar. Ao fim de muitos anos, o seu único filho regressava a casa. Ouvira dizer que tinha fugido por amor.
"- Não chegues tarde!" - disse a mãe.
Saí com a sacola dos livros. Hoje pesava mais do que o habitual. A paixão pela leitura fazia com que trouxesse cada vez mais livros para casa. O pai não gostava que lesse e a mãe, desde que não deixasse a casa por arrumar, não se importava muito.
Como sempre, o caminho até à aldeia era o mesmo, a imaginação é que mudava. Uns dias era um deserto, outros montanhas com neve, uma planície. Era uma amazona, uma terrorista, uma guerreira, uma princesa.
Ia assim com os seus sonhos, quando perto do riacho, encontrou um senhor com um olhar tão triste, diria que até já teria estado a chorar. Cabelo castanho escuro, olhos negros, tom de pele queimado pelo sol. Olhava fixamente para mim. Assustei-me um pouco e corri. Corri até não poder mais.
"Os livros!" Deixei lá os livros. E agora? Como os iria entregar? O que diria ao sr. Meireles?
Dei voltas e mais voltas. Como voltar lá? Não sabia quem era aquele homem.
Não podia ir falar com o sr. Meireles, não podia voltar ao riacho. Não podia dizer nada ao meu pai, pois nunca mais me deixaria ir à aldeia. O que iria fazer??
Sentei-me encostada à laranjeira. Os raios de sol passavam por entre a folhagem, e o cheiro a laranja inundava o ar. Fechei os olhos e pensei no rosto do riacho. Porque estaria triste e a chorar?
Não sei quanto tempo passou. "Acordei" com a voz da minha mãe.
Senti alguém perto. mas a voz da minha mãe parecia estar longe. O sol encandeava-me.
Tapei o sol com a mão, e bem perto de mim, estava o rosto do riacho. O que fazia ali? Ter-me-ia seguido? Quis chamar o meu pai, mas a voz não saía. Tentei levantar-me, mas as pernas não se mexeram.

(continua)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um Delírio...V

(continua)
Ainda recordo a primeira vez que vi o Sr. Meireles.
A carrinha da biblioteca itinerante chegava todos os meses, no mesmo dia, à mesma hora.
Quando lá passava, de mão dada com a minha mãe não sabia o que era. Um carro na aldeia, não era coisa que se visse todos os dias.
Imaginava o que seria. O que traziam aquelas pessoas quando de lá saíam? E o senhor que lá estava. Tinha um ar simpático. Sempre sorridente. Falava com todos de igual modo.
Quando me via passar, sorria. Envergonhada, escondia o rosto na saia da minha mãe. Tinha medo daquele senhor.
Certo dia de Outono, em que o tempo começa a ficar frio, as noites a chegar mais cedo, ia para casa mais a minha mãe, quando passou a carrinha por nós. Ouvi o motor parar, e o senhor disse algo à minha mãe. Ela pegou-me ao colo e entrámos na carrinha. Fiquei com medo. Agarrei a minha mãe com todas as forças que tinha. A minha face contra o seu peito, quase que não a deixava respirar. Ouvi-o sorrir.
"- Não tenhas medo pequenota."
"-Peço desculpa, senhor. A Maria não costuma ser assim. Até é uma criança muito faladora, um pouco tímida, mas fala pelos cotovelos."
Ver as paisagens que tão bem conhecia pelo janela da carrinha a passar mais rápido que o normal. fez-me sorrir.
"-Chegámos!"
"-Mais uma vez obrigado, sr. Meireles. Maria agradece ao senhor!"
Não queria. Não queria olhar para aquele senhor, que tanto medo me metia.
"-Maria, como te portaste tão bem, tenho um presente para ti." - Um presente? Para mim? Nunca tinha recebido um presente. Nem sabia o que era um presente. A medo voltei a cara. Diante de mim estava uma cara triste, uns olhos castanhos tristes. A boca sorria, mas o resto não.
"-Não esteja triste! Eu gostei do passeio!" - disse com medo.
"-Toma. Um livro. É para ti. Não precisas devolver como os outros meninos. Este é só teu."
Sorri. Agradeci. E quando ia a despedir-me, disse baixinho: "Não esteja triste. Eu virei vê-lo sempre. Prometo!"
E assim foi.
Durante os anos seguintes, todos os meses lá estava à espera do sr. Meireles. Falávamos de tudo, família, livros, música, escola.
O dia mais triste da sua vida, foi quando casei. Nunca me disse o porquê.
E agora, aparece um neto, que eu nem sabia que existia. Falavam de mim. Como falavam de mim?! Porque falavam de mim?!

Agarrei a carta que acabara de ler. Dobrei-a e guardei-a no livro que não iria devolver nunca mais.
"Ricardo" disse baixinho.

(continuação)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Delírio IV


(Continuação)


"Encontro-me sentado à sua espera.
O desejo de a conhecer é enorme. Sei tanto de si, que parece que sempre a conheci. E realmente conheço.
Toda a minha vida ouvi falar da Maria. O que a Maria fazia, o que lia, do que gostava. Nessas alturas tentava imaginar a sua vida, como seria, onde lia, quais seriam os seus sonhos, os seus desejos. Quantas vezes dei por mim a reler os livros que tinha lido, tentar sentir o seu cheiro através deles...
Um dia haveria de a conhecer e esse dia chegou...
Só tenho a agradecer ao avô Meireles..."

-
Avô Meireles!?!? Como avô Meireles!?!?

(Continua)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Delírio III



(continuação)

Corri!
Corri até não poder mais. Tudo o que queria era sair dali.
"Ricardo" o nome, a cara, a voz não saíam da minha cabeça, do meu pensamento.
Começou a chover. As gotas batiam no meu corpo como se me quisessem derrubar, deitar ao chão.
O livro dentro da sacola. Era tudo o que nos unia. Porque quereria que eu o lesse?? Como saberia o que eu gostava?? Porque o sr. Meireles lhe falava de mim??
Tantas perguntas sem nenhuma resposta.
Sentia os ramos das árvores, ferirem o meu corpo; o meu pensamento feria a minha alma.
Nunca me tinha sentido assim. Nem mesmo com José.
Os dias foram passando.
A sacola dos livros continuava no mesmo sítio, desde a última ida à carrinha da biblioteca. Olhava para ela todos os dias, mas o receio por saber o que lá estava, o que lhe fazia lembrar, e saber que Ricardo lhe tinha tocado, teria o cheiro dele, o toque dele.
José já tinha estranhado não ver nenhum livro na sala, não encontrar Maria a sorrir. A sorrir para um livro. Nunca o conseguiria compreender.
Os dias foram passando entre o trabalho, a lida da casa. Por vezes olhava de soslaio para a sacola. O dia seguinte seria dia de visita da carrinha. Já tinha decidido não voltar lá. Não queria encontrar o novo bibliotecário.
Pega na sacola. Já não podia adiar mais ver o que lá estava.
Segura o livro. Uma folha escorrega e cai ao chão.
O seu corpo estremece.
Uma carta!!!
Uma carta de Ricardo!!!

(Continua)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Um Delírio II

(continuação)


Lentamente voltei-me. Sentado no fundo da carrinha, vi um homem não muito alto, parecia novo. Cabelo escuro, olhos negros
- Maria? É esse o seu nome?
- Sim. - respondi um pouco surpresa. Como saberia, este homem o meu nome? Quem seria? Onde estaria o sr. Meireles?
- Decerto estará confusa. É natural! O sr. Meireles é muito querido pelas suas leitoras, e agora estranham a minha presença.
- Sim. - estava tão nervosa que não sabia responder mais nada.
Onde estaria o sr. Meireles? Quem era aquele homem, que me olhava de uma maneira tão misteriosa?
- Venho entregar os livros. Peço desculpa pela demora. - não queria pedir desculpa por nada. Não era a este homem que eu queria pedir desculpa.
- Não faz mal. Estava à sua espera. O Meireles fala tanto em si, que estava desejoso, curioso em a conhecer.
- A mim? O sr. Meireles fala em mim? Mas quem é o senhor?
- Chamo-me Ricardo e sou o novo bibliotecário. O Meireles adoeceu e durante os próximos meses serei eu a substituí-lo. - o seu tom de voz, alterou-se um pouco quando referiu que vinha substituir o sr. Meireles.
Revirei a sacola dos livros. Aquele olhar! Tinha que sair dali o mais rápido possível. Logo hoje, o dia em que pela primeira vez não me tinha arranjado, saí sem me pentear, andei à chuva, cheguei atrasada, com as faces ruborescidas. E o sr. Meireles não está!
- Guardei um livro só para si.
- Como sabe do que gosto de ler? - perguntei atrapalhada.
- Sei tudo sobre si. - disse convincente.
Desviei o olhar. Queria fugir dali. Encaminhei-me para a porta. Senti uma mão forte, mas ao mesmo tempo suave, segurar o meu braço.
- Por favor, não vá!- disse quase a suplicar.
- Tenho que ir. Já é tarde.- o meu pensamento foi enganado pela minha boca. Queria ficar.
- Leve este livro. Devolve para o mês que vem.
Peguei no livro e saí. Não queria olhar para trás. Quem era aquele homem, que pôs o meu coração a bater tão rápido, o meu pensamento a pecar, o meu corpo a desejar??
(continua)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um Delírio I


(continuação)

O Inverno naquele ano tinha chegado mais cedo. As temperaturas geladas, a chuva ininterrupta há já vários dias, escurecia o seu dia, a sua vida.
Era dia da visita mensal do sr. Meireles. Com o tempo a preocupação de vestir o melhor fato, foi deixada de lado. Não estava com disposição de sair, mas tinha os livros para entregar, e nunca se tinha atrasado em tal compromisso. Olhou-se ao espelho, antes de sair. Uma madeixa branca teimava em revoltar seus longos cabelos castanhos. A pele macia, deixava as primeiras rugas ainda envergonhadas.
Pegou na sacola dos livros e saiu.
A chuva continuava a cair. Fechou o guarda-chuva. Adorava andar à chuva. Sentir as gotículas tocar o seu corpo. Pequenas gotas gelando o seu corpo. Naquele momento poderia ser quem queria, o seu pensamento voava para longe...
Não sabe quanto tempo terá andado à chuva. O sr. Meireles!?! Tinha que correr até à aldeia. Ainda lá estaria??
Ao longe avistou a carrinha. Estaria à sua espera? Ele não ficava assim tanto tempo.
-Sr. Meireles, desculpe. Sabe como eu sou. Adoro a chuva.
- O sr. Meireles não está. Estava à sua espera.

(continua)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um Delírio...

Charles Perugini

Os olhos vincados por uma noite mal dormida, fazem adivinhar um dia cansativo.
O corpo doído puxa-a da cama.
Recorda a noite que passou com enorme mágoa.
Os filhos já deitados, não assitiram ao início.
Fora deitá-los cedo. Aconchegou-os na cama e deu-lhes um beijo de boas noites. Sorriu ao ouvir o mais novo dizer "Mãe, gosto muito de ti!". O mais velho também disse algo, que a sonolência já não deixou decifrar. O do meio, mais acanhado, simplesmente sorriu. Beijou-os, afagou-lhes o cabelo, acendeu a luz de presença e encostou a porta.
Recostou-se na cama e folheou o livro que começara a ler horas antes. Só neste silêncio conseguia ler. Viver os seus sonhos, os seus desejos. Quantas vezes encarnava as heroínas, as vilãs. Quantas paixões, amantes terá tido? Nem se lembra. Fora tantos os livros que lera desde nova, que já não tinham conta.
Casara cedo. Os pais, homens do campo arranjaram-lhe pretendente cedo. Não queriam morrer sem deixar a sua menina entregue a alguém que cuidasse dela, quando eles tivessem partido.
José homem trabalhador, o filho dos vizinhos foi a escolha. Nem a diferença de idades foi obstáculo a tal união.
Maria tinha 15 anos quando casou e José tinha 40. No início, tratava-a bem. O seu corpo franzino fora seu cúmplice durante os primeiros anos de casada. José só a procurava uma vez por mês e era tão meigo, tão delicado, tão atencioso.
Aprendera a vida de lavoura com o marido. De madrugada, acordavam e enquanto ele tratava do farnel, ela dava um jeito na casa. Não gostava de deixar a casa desarrumada. Seguiam por uma vereda junto ao cercado do campo, acompanhando a rotação de culturas. Ela tratava dos cultivos, ele dos animais. Juntavam-se à hora de almoço, e ele quando chegava trazia sempre uma flor, que lhe entregava depois de a beijar. Ela corava, sorria.
Os anos foram passando. José já a procurava mais amiúde. O seu corpo franzino, dera lugar a um corpo formoso, e nem os filhos lhe tiraram esbelta figura.
Todos os meses passava pela aldeia a carrinha da Biblioteca. O ritual era o mesmo todos os meses, desde que aprendera a ler. Acordava cedo, vestia o seu melhor fato (não queria que o bibliotecário a visse como mais uma coitada da aldeia), pegava na sacola onde guardava os livros e lá ia percorrendo os poucos quilómetros até à aldeia. Com a chegada dos filhos, José queria mudar para mais perto da aldeia, mas ela gostava do sítio onde moravam. Um vale, com inúmeras árvores e onde passava um riacho. O sítio ideal para viver e sonhar. Com o passar dos anos, tornara-se amiga do Sr. Meireles. Ele guardava-lhe todos os livros da sua preferência e deixava-a trazer sempre mais do que o estabelecido. Ele sabia que ela os lia e tratava bem, como se de filhos se tratassem.
O marido ao início não se importava com a demora. Como não lhe podia dar mais, deixava-a entregue à sua leitura, pois sabia que a fazia feliz.

(continua)