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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Desculpas! Desculpas!

Os dias por aqui continuam chuvosos, com nevoeiro, diria mesmo;"Uns dias lindíssimos!"
Não é para falar do tempo que estou a escrever este post.
Quem visita o meu blog, quem me segue (persegue, eheh), e vasculha tudo o que escrevo, já deve ter notado que a etiqueta "DELÍRIOS" já a algum tempo que ficou parada. Coitadinho do José, ficou abandonado em África, com a guerra colonial. E a Maria, "assediada" pelo Ricardo e sem saber o que fazer.
Ai Meu Deus, tenho que colocar a história em dia!
Tenho recebido e-mails de pessoas conhecidas e algumas desconhecidas a "cobrarem-me" o resto da história.
Tenho duas histórias em "mãos", e depois quem sabe, um dia quando me visitarem não terão o seguimento dos "Delírios". Não vou prometer nada, pois não gosto de prometer e depois falhar.
Para quem nunca leu, aproveitem!
O dia continua chuvoso!

domingo, 6 de maio de 2012

Um Delírio XXVII

Já nada fazia sentido.
A morte de Ana Maria foi um golpe terrível. Bem pior que estar no meio da mata.
Os dias, as noites já não faziam sentido. Nem matar ou mesmo até morrer.
Não me tinham deixado regressar a Portugal para acompanhar o corpo, "Porra!" tinha sido a mim que ela tinha dito as últimas palavras. Fiquei só. Já não me sentia assim a algum tempo.
Numa noite de vigia, o calor era enorme. O espesso arvoredo envolvente, não deixava o ar passar, a humidade no ar era grande, quase não conseguia respirar. O suor fazia o fardamento colar-se ao corpo. A lua cheia, deixava um mar de prata invadir o acampamento. Lá em baixo alguns camaradas fumavam e bebiam Cucas e Nocais. Aquela seria uma camaradagem que ficaria para toda a vida. Para a vida daqueles que dali conseguiriam sair.
Dava por mim a pensar que já não me importava morrer.
A PIDE já não fazia tantas visitas. Acho que tinham percebido que se tinham enganado ou então teriam arranjado outro pobre desgraçado para dar cabo da vida.
Nas noites de vigia, dava muitas vezes por mim a pensar no riacho perto de casa, nos meus pais. Será que eles sabiam por onde andava? Por mais forte que o meu desejo fosse vê-los, não sei se isso algum dia chegaria a acontecer.
Subitamente tiros. De onde? Como? A noite estava tão iluminada. Não tinha visto vultos nenhuns a passar perto do aquartelamento. Mesmo dos postos de vigia perto, nada viram. Agora era defender a "nossa casa", defender os nossos camaradas, os nossos amigos.
Fechei os olhos. No meu íntimo vi um olhar de uma criança, sorria. "Dispara! Dispara, agora!"
Sem saber disparei ao acaso. Os olhos continuavam fechados. Ouvia o som à esquerda e disparava. Ouvia atrás de mim, voltava-me e disparava. Os minutos seguintes foram intensos em tiroteio. Ouviam-se gritos, gemidos. Havia camaradas feridos. Tinha que os tentar defender de onde estava.
Silêncio!
O tiroteio parou. Abri os olhos e a imagem desapareceu. Deixei de ouvir a sua voz. Terei sonhado?
Ao descer do posto de vigia, encontrei camaradas feridos, por alguns já nada havia a fazer. Tentei ajudar quem podia. Uns gritavam com dores, outros com medo, outros simplesmente porque era uma maneira de libertar a raiva.
Amanhecia.
Uma manhã manchada de sangue.

domingo, 1 de abril de 2012

Um Delírio XXVI

NOTA: Peço desculpa aos leitores assíduos do "Delírios" por esta demora. Foi o capítulo mais dificil de escrever, pois estou a falar duma situação na qual não vivi, situações pelas quais não passei, e sendo uma situação real, não podia inventar. O resto é o delírio da minha alma.

(Continuação)
Ficou um calor intenso depois da tempestade. Um calor sufocante, que dificultava a respiração.
Fomos encaminhados para uns jipes. Por nós passavam dezenas de militares que tinham acabado a "comissão".
"-Vamos a despachar seus merdas! Agora é que vão ver o que é o inferno!"
Comentários que faziam voltar o meu olhar. Para que inferno me tinham enviado? Eu não pedi para vir para aqui. Os sorrisos estridentes, o olhar vazio, uma loucura o que nos aguardava. Por nós passavam jovens, muitos já nem sabiam o que ali estavam a fazer, feridos, muitos feridos. Esta imagem da nossa chegada, acompanhou-me durante meses.
Os Unimog iriam fazer o transporte em várias fases, pois cada um só levaria 11 homens de cada vez. Isso dar-me-ia alguma margem de manobra para ir ao "encontro". Teria que arranjar uma maneira de escapar sem Ana Maria dar por isso.
"-Que calor!"
"-Um calor insuportável, nada como em Lisboa."
"-Ana, queres água? Espera aí um pouco que já volto." E antes que ela dissesse algo, dei meia volta e segui.
Cheguei perto de um militar, e após lhe mostrar o envelope que me tinham entregue, ele mesmo fez questão de me levar à dita morada.
Poucos minutos de conversa foram os suficientes para entender que a minha "missão " em Angola era vigiar Ana Maria. Todas as semanas alguém iria ter comigo e teria que dar todas as informações do que ela tinha feito, com quem tinha falado.Enfim iria ser um "bufo".
As primeiras semanas passaram depressa, o nosso aquartelamento ficava na parte norte de Angola. Uma terra árida, vermelha, um calor intenso. Os tempos que não eram passados na actividade operacional, eram os mais livres, arranjar os telhados de zinco, as casernas, fazer fornos de pão, a aperfeiçoar os abrigos subterrâneos. Até aí as desconhecidas artes de engenharia eram postas à prova por vários soldados. Algumas vezes aplicavam-se algumas das técnicas aprendidas com os locais para fabrico de tijolos de adobe, tectos de colmo. Uma vez até de uma caixa velha de madeira, se fez uma câmara de televisão que deu para "filmar" um jogo de futebol e algumas reportagens para os familiares em Portugal. Pena ser tudo a fingir, mas deu para passar o tempo. Um dos momentos mais aguardados era a chegada do correio. Dezenas, centenas de soldados ansiosos por saber notícias de casa, outros para receber os aerogramas das "moças casadoiras". Havia quem tivesse duas ou mais, assim como os fieis com a moça do aerograma que diziam eles que era para casar. De vez em vez, Ana Maria recebia notícias da mãe. Nesses momentos, vinha chamar-me para lermos a carta juntos. Como ninguém me escrevia, este era o momento que mesmo sabendo que a carta era para ela, também eu a tinha como se fosse só para mim. O que eu desejava receber notícias dos meus pais, de alguém que escrevesse só para mim, só a pensar em mim.
Os momentos de combate eram os mais complicados.
Nunca tinha passado pela IAO (Intrução de Aperfeiçoamento Operacional), por isso tinha aprendido por mim a proteger a minha vida, a proteger a vida de Ana Maria. Era enfermeira, mas por vezes, rebelde como sempre fora, queria ir na coluna na picada. O pó que ficava a cada passagem dos veículos na época seca. Eram horas passadas na coluna, era aí que as conversas mais íntimas se faziam com o camarada do lado, se sabia o que se tinha deixado para trás. Era também nessas alturas que aconteciam emboscadas.
"-Ana, já cá estamos à quanto tempo?"
"-Quinze meses. Conto todos os dias e no fim agradeço a Deus o termos sobrevivido."
"-Olha que eu tenho visto a maneira como o Rodrigues olha para ti."
"-Estás armado em pai?" e deu uma gargalhada enorme."-Não te preocupes, sei cuidar de mim."
"-Calem-se!"
Ficámos em alerta, os nossos olhos, o nosso corpo, a G3, voltavam-se em todas as direcções. Saltámos do jipe e fomos seguindo, olhando em todas as direcções. Um primeiro rebentamento de mina, fez-nos deitar ao chão, de seguida, soaram rajadas de tiros de todas as direcções. Arrastámo-nos pelo chão, tentando encontrar algo que nos abrigasse. Ana Maria seguia a meu lado, o seu olhar denotava medo. 
"-Tenho que ver se alguém precisa de ajuda."
"-Agora não! Fica a meu lado! É uma ordem!"
Quando chegámos perto da mata que nos circundava, os tiros pareceram acalmar. Ouvia-se gemidos, gritos de dor. Eram homens, soldados, camaradas, amigos nossos que ali estavam. Com a vida suspensa e nós sem podermos fazer nada. Do sítio onde estávamos, vimos um camarada. Estava imóvel, não sabia se estava morto, se estava vivo. Rastejámos mais um pouco até chegar a ele. Já nada havia a fazer!
Comecei a chorar. Não era a primeira vez que chorava em alturas de emboscadas. Sim tinha medo! Quem não tinha? Olhei para Ana Maria. Também ela chorava. Pressentimos que alguma coisa má estaria prestes a acontecer. Senti a mão de Ana segurar a minha, fortemente.
"-José, irei amar-te sempre!"
"-Ana, também te amo!"
Ela chegou perto de mim, beijou-me. Correspondi. Era um beijo! Mas um beijo que de verdadeiro amor nada tinha. Um amor de amizade que sempre sentimos um pelo outro.
Ao longe ouvia-se o som dos helicopteros. Já estava a chegar a nossa ajuda. Iria tudo correr bem.
Começaram a ouvir-se de novos tiros vindos de todos os lados. Os nossos camaradas ripostavam e as coisas acalmaram. Ajudámos a levar os feridos para os helis.
"-Ana vais com este grupo!"
"-José fico aqui a ajudar-te."
"-Nada disso! Vais!"
Quando entrou o último ferido, empurrei Ana para dentro do heli. Ela sorriu.
"-Sim, papá vou já. E ainda bem pois o Rodrigues também vai." sorriu.
Antes da porta fechar-se, Ana voltou-se para me fazer adeus. Nesse momento um tiro furtivo, acerta em Ana Maria. O seu corpo é atirado ao chão. Corro na sua direcção. 
"-Ana estou aqui. Não digas nada. Estou aqui!"
Ana olha para mim. Do seu corpo o sangue escorre sem parar. O seu olhos marejados de lágrimas, a sua respiração ofegante no início, quase se deixou de ouvir.
Entro para o heli, e a porta corre atrás de mim para se fechar. Levantamos voo.
"-Rápido!"
Encosto a minha cabeça à de Ana e assim me deixo ficar.
"-José!"
"-Sim estou aqui, não digas nada!"
"-Protege a minha mãe. Diz-lhe que a amo muito."
"-Sim vou dizer e a teu lado."
"-José vive por mim, por aquilo que acredito, sê feliz!"
"-Ana, não te canses. Já falamos."
Senti a sua mão apertar fortemente a minha. Olhei para Ana e vi o seu olhar despedir-se de mim.
O meu coração ficou tão apertado, o meu olhar triste não deixava de ver Ana por um segundo sequer. Aos poucos o seu corpo deixou de batalhar pela vida, o seu olhar, foi ficando vazio, parado.
Não podia ser, não podia ser. Não a Ana.
O Dr. Vasco tentou fazer a reanimação, mas já não havia nada a fazer.
Ana Maria tinha morrido.
(continua)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um Delírio XXV

(continuação)

Decidi não contar a Ana Maria o que se tinha passado, não a queria assustar.
Já tinham passado catorze dias desde que tinha saído de Lisboa e nunca me tinha apercebido que houvesse alguém a vigiar-me. Sempre andei de um lado para o outro, as conversas não tinham sido às escondidas, os encontros também não, não havia nada de anormal que me fizesse suspeitar que tais pessoas também viajassem para África. Que iriam lá fazer?
No dia seguinte era o dia da chegada a Angola. Para onde iria? O que me iria acontecer? Agora sabia que iriam estar sempre a vigiar-me, já não sentia a liberdade como tinha sentido nestes últimos dias, como tinha sentido em toda a minha vida. Adormeci...
A azáfama da chegada fez com que toda a gente andasse atarefada. O arrumar dos quartos onde tinham ficado, as roupas, as despedidas antes da chegada, a chamada dos militares para lhes indicarem para onde se deveriam dirigir quando desembarcassem. E eu? Para onde iria?
Fui procurar Ana Maria.
Encontrei-a debruçada sobre a proa. O vento quente ondeava o cabelo loiro. O vestido cintado desenhava o seu corpo formoso. Fazia sonhar qualquer homem, imaginar uma mulher assim a nosso lado. Mas para mim Ana Maria era como uma irmã. Intimamente tinha jurado protegê-la e levá-la sã e salva para casa.
"- Estás aí, José?"
"- O quê? Ah sim, andava à tua procura."
"-Já me encontras-te! Anda aqui para o pé de mim. Quero estar a teu lado quando avistarmos Angola."
"-Acho que ainda faltam algumas horas."
"-Não faz mal. Quero ficar aqui contigo um pouco."
Será que o tal homem também "visitou" Ana Maria?? Não lhe podia perguntar nada, não a queria preocupar. Tinha que aguardar que ela me dissesse alguma coisa. Ficámos a conversar coisas banais da nossa infância, juventude. Conhecermo-nos mais um pouco.
À medida que chegávamos mais perto de Luanda, o tempo foi ficando escuro. As nuvens sobrecarregaram o céu fazendo adivinhar uma tempestade tropical como já tinha ouvido dizer a alguns tripulantes do navio. A temperatura continuava alta. Esta mudança no tempo quase que era um prenúncio de como iria ser a nossa vida em Angola.
"-Ana Maria é melhor irmos para dentro."
"-Não! Vamos ficar aqui. Quero ver tudo, quero sentir a chegada nem que seja à chuva."
"-Vamos para dentro!"
"-Por favor José fica aqui comigo!"
Senti a mão de Ana Maria segurar a minha, puxando-me para junto dela. Os nossos olhos encontraram-se. Encontraram-se de uma maneira especial. Ela chegou-se mais perto, o seu corpo tocou o meu, senti a sua respiração perto de mim.
"-Fica!"
Encostou a sua cabeça no meu peito e ficámos assim os dois a presenciar a chegada a terra. À medida que nos fomos aproximando a chuva teimou em cair cada vez mais forte, mas nenhum de nós se moveu. Abracei-a mais um pouco para sentir o seu corpo bem perto do meu.
"-Não te preocupes, irei proteger-te enquanto aqui estivermos."
"-Eu sei Ana Maria. Mas só como amigos."
Ela desviou-se um pouco, olhou para mim e disse: "-Amigos!".

Quando o navio atracou, cada um voltou ao seu quarto para ir buscar as malas.
Combinámos encontrar-nos no início das escadas antes da descida. Mas quando ia a sair do quarto, vi o mesmo homem do dia anterior. Dirigia-se para mim. Entregou-me um envelope. "-Dirige-te a esta morada e entrega este envelope, estará lá alguém à tua espera. Não te esqueças!" e seguiu.
Será que aquela gente nunca mais me iria deixar sossegado?
Quando cheguei perto de Ana Maria ela notou que algo que não estava bem. Disse-lhe que estava nervoso com toda esta novidade e descemos as escadas.
Tinha chegado a África, Angola. Tinha chegado não para uma, mas para duas guerras.

(Continua)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um Delírio XXIV

Rapidamente me vi envolvido por um abraço forte. Como soube tão bem "aquele" abraço. Porém as fortes dores corporais, fizeram-me retorcer um pouco.
"-José, que bom ver-te, homem!"
"-Ana Maria, estás bem!"
"-Claro que estou bem. Eles quebram, mas não partem."
O meu pensamento levou-me aos últimos dias da minha vida. Dias que preferia esquecer, mas que de momento fizeram-me ficar triste. As lágrimas correram umas atrás das outras, e o abraço a Ana Maria ficou forte, apertado.
"-José estás a magoar-me!""- Desculpa Ana Maria." - afastei-me um pouco, mas não o suficiente, para deixar de sentir o cheiro bom que emanava pelo ar, que vinha dela. Depois de contar o que se tinha passado comigo, queria saber o que lhe tinha acontecido."- Já sou habitual nessas andanças. Os meus pais sempre foram pessoas contra o regime que se vive em Portugal. Muitas vezes fomos todos presos, mas nunca conseguiram que denunciássemos nenhum dos nossos camaradas. O maior desgosto da minha mãe é não saber onde está o meu pai. Um dia levaram-no para Caxias e nunca mais o vimos. Ainda tentámos o Aljube, Tarrafal, mas ninguém nos diz nada. Naquele dia que nos apanharam no jardim pensaram que eras o Júlio que está em França e que de vez em quando vem a Portugal. Quando lhes disse que tinhas vindo da aldeia, nunca tinhas vindo a Lisboa e que te estava a mostrar a cidade, acreditaram em mim, mas disseram-me logo que tinha dois dias para me apresentar no Quanza e seguir para Angola, não..."
"-Angola? Ana Maria vamos para Angola? Para a guerra? Se sabiam quem eu era, porque não me deixaram seguir a minha vida? Angola porquê?". As lágrimas voltaram a correr ininterruptamente. Que seria da minha vida?
"-Eu vou estar contigo. Vou fazer parte da equipa de enfermagem. Tento colocar-te no hospital para não ires para a frente de batalha. Não te preocupes José, irei tomar conta de ti."
Ao ouvir aquelas palavras, e sem saber explicar, senti que estava em segurança perto de Ana Maria.
Só então reparei que havia mais gente no pequeno quarto onde estávamos.
Os dias foram passando calmamente na companhia de Ana Maria e dos seus amigos, que também já eram meus amigos. As outras pessoas já não olhavam para mim de soslaio, afinal tudo ali estava para ir para a guerra, a guerra em África.
Sabia que tinha começado à quatro, cinco anos, já tinham passado na aldeia a recrutar homens para a missão, mas não sei como, tinha sempre ficado para trás. E agora estava ali.
"-Amanhã chegamos a Angola. Quando desembarcarmos fica perto de mim."
"-Claro que sim. Assim como tomarás conta de mim, também tomarei conta de ti para te levar sã e salva para Lisboa de volta a casa."
"-Não preciso que tomem conta de mim!"
"-Amigos Ana Maria, só amigos!"
Aqueles últimos dias na companhia de Ana Maria, fizeram-me esquecer um pouco o terror que me tinha acontecido. Nunca mais queria estar numa situação daquelas, embora aquela para onde ia, não fosse a mais agradável, mas no momento seria o paraíso comparado com o que passei. Despedimo-nos com um abraço, como sempre fazíamos, e segui para o compartimento que tinha sido o meu quarto nos últimos 14 dias. Por momentos senti que estava a ser seguido, mas devia ser imaginação, pois havia tanta gente no barco, que era normal seguirmos uns atrás dos outros para onde quer que fossemos. Mas aqueles passos pareciam estranhos, não um passo normal, mas continuei. Quando cheguei à porta do meu quarto voltei-me e ali estava um rapaz novo, parecia mais novo que eu, olhava-me com um ar estranho.
"-Boa noite!" - disse.
"-Boa noite!" - avançou na minha direcção. Senti o meu corpo estremecer, relembrei o meu pesadelo, o meu coração disparou, uma angústia assolou o meu corpo.
Passou lado a lado comigo e seguiu pelo corredor. Fiquei a olhar para ele. Senti um alívio enorme. Não era nada. Só coincidência de passagem.
Quando olhei em frente, vi um rosto bem perto do meu.
"-Não te esqueças, estamos de olho em ti, sempre!"
Agarrei com toda a força a maçaneta da porta para não cair, pois as forças caíam em pique, em direcção ao chão. As pernas tremiam, todo o meu corpo tremia. O pesadelo não tinha acabado.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um Delírio XXIII

(continuação)
Tentei imaginar os meus pais no cais. Intimamente até acho que os vejo mesmo. Ali, ao fundo, encostados aquele poste. Sorrio. Uma lágrima corre pela minha face. O braço, dorido, levanta-se e acena. Quero acreditar que os estou mesmo a ver. Aceno fortemente para o cais, como fazem dezenas de pessoas a meu lado. Não sou o único que chora. Mas possivelmente serei o único a não ter ninguém fisicamente naquele dia, naquele espaço a corresponder à minha despedida.

Deixo-me ficar encostado aos ferros a ver a cidade de Lisboa ficar cada vez mais pequena.
"Para onde irei?"
Aos poucos, lembro as últimas horas, os últimos dias, e uma dor assola não só o meu corpo, como o meu ser.
Respiro fundo. Deixo a brisa do mar, entrar bem fundo nos meus pulmões. Saco às costas. Tenho que procurar alguém que me diga para onde vou.
Caminho sem saber para onde. Entro por uma porta que me leva a um corredor estreito, onde vejo algumas portas abertas. Camas e mais camas. A meio do corredor, encontro outras escadas, que desço. Poucas são as pessoas que para mim olham. Nem sei muito bem como estou. Possivelmente as feridas, as nódoas negras que terei na cara, afastam-nas e percebo porquê. Não condeno ninguém por me querer afastar. Mas precisava mesmo saber para onde ia.
"...mesmo longe da pátria, temos que nos unir, ajudar os irmãos que ficaram..." - eu conheço esta voz! Uma voz conhecida. Sigo mais rápido até chegar à porta de onde saía o som da voz.
"-Ana Maria!"
(continua)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Um Delírio XXII

Júlio Pomar

(continuação)

Os poucos segundos que decorreram até o terceiro elemento chegar perto de mim, pareceram anos. Ouvia os passos cada vez mais perto, o arrojar das correntes pelo chão. "Que me iria acontecer? Eu não era quem eles pensavam."
O medo deixou-me imóvel, queria falar mas nenhum som saía da minha boca. O pânico sobre o que me estava prestes a acontecer deixou-me sem reacção.
Bruscamente senti uma mão agarrar fortemente o meu cabelo, levando a que a minha cabeça tombasse para trás. Neste momento os meus olhos entreabriram-se. Pouco conseguia distinguir a cara que se encontrava a milímetros de mim.
"-Então o passeio por Paris foi curto. As saudades da Ana Maria foram mais fortes?"
"-Eu, eu..."- imediatamente senti o meu corpo, empurrado pela mão que me segurava o cabelo, estatelar-se no chão. Um corpo sentou-se em cima de mim, torcendo-se as minhas mãos que continuavam presas atrás da cadeira. Uma dor irrompeu pelos meus braços que aos pouco fui deixando de sentir.
"-Eu não fiz nada! Não sei quem procuram. Cheguei ontem de uma aldeia. Eu não fiz nada!" - as lágrimas corriam incessantemente.
"-Vamos ter que te avivar a memória, meu caro. Vocês, ajudem aqui!"
Levantaram-me do chão, as algemas com pedaços de carne e sangue agarrados foram tiradas dos meus pulsos, que não sentia. Começaram a despir-me. Tentei lutar, debater-me mas em vão. Começaram os três a pontapear todo o meu corpo, senti algo mais duro bater-me ferozmente. Parei de resistir. Não valia a pena. Já nada valia a pena. Estava à mercê de três homens que nunca vira, não sabia o que queriam. Possivelmente nem sairia dali vivo. Devo ter desmaiado.
O meu pensamento encontrava-se no riacho perto da minha casa. Era Primavera, a água límpida deixava ver as pedras lisas e os peixes que por ali nadavam. Senti um movimento e olhei em volta. Um rosto sorria para mim. Teria chegado ao céu??
Um balde de água gelada fez-me despertar do meu sonho.
Não sentia o meu corpo.
Encontrava-me suspenso no meio de uma sala, um pouco diferente da anterior. Os pés encontravam-se presos por correias que me seguravam a um gancho preso no tecto. Os braços amarrados atrás das costas pendiam para baixo, fazendo doer os ombros. A cabeça praticamente não a sentia, os meus olhos estavam inchados, sentia-os inchados. Havia sangue no chão, meu. O meu corpo pingava, escorria. Para além deste vermelho vivo, havia um vermelho/acastanhado, seco, possivelmente de outros que passaram por ali antes de mim.
"-Vamos lá ver se agora te lembras."
"-Já disse, cheguei ontem da aldeia. Não sou quem vocês procuram."
"-Como sabes que procuramos alguém?"
Após esta frase, fui espancado violentamente toda a noite. Revezavam-se uns aos outros. Desmaiei algumas vezes, mas quando sentiam que voltava a mim, logo continuavam os espancamentos. Assim durou mais dois dias.
Não havia pedaço nenhum do meu corpo que não tivesse um golpe, uma nódoa negra, um rasgo de sangue. As dores eram insuportáveis.
Um cubículo em pedra bafienta era onde se encontrava o meu corpo, despido, despedaçado.
Os momentos em que desmaiava eram os mais felizes. Um rosto a sorrir, era tudo o que me lembrava.
Ouvi uns passos vir na minha direcção. "Ia começar tudo de novo", pensei.
Pegaram em mim, levaram-me para uma sala onde se encontravam dois homens. Nada disseram. Começaram a vestir-me e obrigaram-me a sentar na única cadeira que se encontrava na sala.
Colocara-me uma venda nos olhos. Levantaram-me da cadeira e aos tropeções e alguns pontapés fui seguindo por um corredor, empurraram-me por umas escadas abaixo, levantaram-me e senti que estava a entrar para um carro. "-Para onde me levariam?"
As portas fecharam-se. O carro arrancou. O sol! Era de dia! O sol queimava-me a pele. Ouvia as vozes na rua, o chilrear dos pássaros, os cheiros, o cheiro do mar. Onde estaria?
O carro parou. Tirara-me a venda. Os olhos ardiam com tanta claridade. Levei algum tempo a conseguir ver o que estava à minha frente. Sentia o cheiro do mar.
"-Vamos a andar, não temos o dia todo!"
Saí do carro. Encaminharam-me para um navio. "Um navio!"
"-Para onde vou? Eu tenho família. Têm que dizer aos meus pais para onde me levam!"
O cais encontrava-se cheio de gente, homens fardados que subiam por umas escadas onde se lia "Companhia Colonial de Navegação", para um enorme navio.
"-Para o teu bem, sobe essas escadas e não voltes tão cedo. Não eras quem pensávamos, e realmente nada sabias. Para não acabares como desaparecido, sobe as escadas e nunca mais voltes a Portugal."
"Nunca mais voltes a Portugal? Para onde ía? "
Peguei no saco que estava a meu lado, e encaminhei-me para as escadas. Não olhei para trás. A enorme armação de ferro que se encontrava à minha frente iria levar-me para longe, para longe dos meus pais, da minha aldeia, do meu país. O "Quanza" seria a minha liberdade? Para onde?
Subi as escadas calmamente. Alguns homens olhavam para mim e falavam baixo depois de passar. Nada me importava, só queria sair dali.
Quando levantou âncora, viam-se famílias inteiras a chorar, os que ficavam, os que partiam, tal como eu. Olhei para as pessoas que ficavam no cais e pensei nos meus pais. Como gostaria que ali estivessem.

(continua)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um Delírio XXI

(continuação)
O bafio inundava o espaço onde sentia que me encontrava.
Estava sentado, braços presos atrás das costas. Braços unidos por umas algemas que ao serem movimentadas, os dentes em serrilha vincavam cada vez mais fundo na pele.
Havia movimento na sala, mas tão pouco me queria ou conseguia mexer.
"-Estava a falar com ela. Só pode ser ele."
"-Já olhaste bem para ele? Não pode ser. Estar refugiado em Paris e aparecer assim à luz do dia em Lisboa?"
Mas de quem falariam. Embora dorido, fiquei mais sossegado. Não era eu! Não era a mim que procuravam.
"-Falei há pouco com o Pedroso. A Ana Maria continua a não querer falar."
"Ana Maria. Não queria falar? Que lhe estariam a fazer?" - pensei.
"-E que fazemos com este? Ele tem que falar! Ou um ou outro nos dirão o que queremos"
Sentia o sangue a escorrer pela cara. Os pulsos já pouco os sentia, o corpo estava dorido, e a cabeça, a minha cabeça praticamente não a sentia. "Que queriam estas pessoas? Eu não fiz nada!"
"-Eu não fiz nada!" - senti a minha voz sair mais alto do que devia.
"-Olha, olha quem acordou."
"-Onde estou?"
"-No Hotel não é, de certeza!"
A porta abriu repentinamente. Os dois homens que se encontravam na sala, voltaram-se. Um terceiro elemento entrou e ouvi que arrojava algo. Correntes? seria o som de correntes?
"- Meus senhores, isto já está a demorar muito tempo."
Senti que algo errado se iria passar e fechei os meus olhos.
(continua)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um Delírio XX

Carlos Botelho - 1935
(Lisboa e o Tejo - Domingo)

(continuação)

Não devo ter dormido mais do que 2, 3 horas. O meu pensamento encontrava sempre o mesmo ser, a mesma pessoa. Aquela pessoa que queria esquecer que existia. Aquela que feriu a minha alma, deixou o meu ser a sangrar.
Encontrava-me em Lisboa. Lisboa, a capital que nunca tinha conhecido a não ser pelo jornal da aldeia e a qual tanto me assustava pelo seu viver, pelo seu costume. E, aqui, estava eu! Sozinho, em Lisboa. A dormir numa cama que não sei a quem pertencia, numa casa, com gente que não conhecia.
Mas tudo isto era preferível ao desgosto.
Ouvi uns passos apressados na rua. Uma porta abriu e fechou-se repentinamente. Vozes a falar em sussurro. Parecia alguém a discutir, mas sem fazer barulho.
"-Já disse que vou, mano! Já me inscrevi!"
"-Irás dar um desgosto à nossa mãe." - esta voz eu conhecia. O amigo que me convidou a entrar nesta casa. Estaria a discutir com quem?
"-Ires assim, para o meio da guerra!?"
"-Não serei a única, mano. Será a minha contribuição a ajudar quem mais precisa."
"-Na guerra? Em África? E para onde irás?"
"-Para onde me enviarem."
Estava tão envolvido pela conversa que nem dei que ao encostar-me a porta ela se abriu e dei por mim, no meio da cozinha com o meu amigo, e uma bonita rapariga. A mais bela que tinha visto até então.
"-Peço desculpa por o termos acordado."
"-Quem és este? A mãe continua a dar guarita a todos os vadios que encontra na rua? Não vos disse para não trazerem ninguém para casa, hoje em dia não se pode confiar em ninguém."
"- Peço desculpa por vir incomodar a vossa conversa. Eu sou de confiança, menina."
"-Também os outros eram, e passado algumas horas lá íamos fazer nova visita ao Aljube."
"-Chega Ana Maria!"- soou a voz forte da dona casa. "- Vai-te deitar! Falamos mais logo! Vão-se todos deitar, ainda é cedo!"
Embora a vontade não fosse muita, todos atenderam à ordem dada.
Voltei a entrar no quarto sombrio, e agora os meus pensamentos estavam no Aljube.
"O que seria? Teria alguma coisa a ver com o que a sr.ª lhe tinha dito?" e com estes pensamentos voltou a adormecer.
Quando acordou já o dia ia alto. Ouvia o tilintar de pratos e copos na casa ao lado.
Ao abrir a porta, deu de caras com a Ana Maria. Pelo menos tinha ficado a saber o seu nome.
"-Bom dia!"
"-Ainda cá estás?" - perguntou com desprezo, zanga. O que muito me entristeceu.
"-Não se preocupe, mesmo hoje ao final da tarde me irei embora." - respondi com tristeza.
Observava a sua esbelta figura, enquanto punha a mesa. Os cabelos loiros,compridos, ondulados, pareciam cachos de uvas, o olhar esverdeado pareciam duas safiras que nos cortavam até a alma, o peito formoso delineava até uma cintura esguia, à qual se copulava uma anca torneada, que faria sonhar qualquer homem. Uma mulher lindíssima!
"-Para onde estás a olhar, parvalhão?"
"-Peço desculpa, mil perdões, não era minha intenção!"
"-De novo a discutir, Ana Maria?"
"-Mãe, ele estava a olhar para mim."
"-Minha senhora, foi sem intenção. Sem intenção de ofender, mas realmente nunca vi mulher tão bonita como a sua filha."
Fiquei tão envergonhado, tão atrapalhado que as duas riram-se na minha cara.
"-Não se preocupe, a minha Ana Maria já está habituada a esses olhares. Realmente é uma mulher muito linda. Muito parecida com o meu falecido."
"-Mãe, chorar agora, não!"
"-Não, senhora, não chore, não fiz por mal"
"-A minha Ana Maria é a recordação mais bonita que tenho do meu falecido marido. Por ela tenho mantido esta vida, para ela conseguir trabalhar no hospital. Sabe é enfermeira há uma ano. O meu orgulho, e o do irmão também!"
"-Mãe, de novo não!"
"-Não. Não vou chorar! E o José para onde vai?"
"-Não sei ainda. Cheguei ontem a Lisboa, não conheço nada."
"-Não seja esse o problema. A Ana Maria está de folga, hoje vai levá-lo a conhecer Lisboa."
"-Mãe!!"
"-É uma ordem!"

Quando dou por mim estava a acompanhar Ana Maria pelas ruas de Lisboa. Não vi nada. O meu olhar, a minha atenção estava toda centrada naquele corpo torneado.
Sentámo-nos um pouco à beira rio.
"-Então o que o trás por Lisboa?"
"-Desgostos, menina Ana. Mas prefiro não falar disso, se não se importa."
"-Claro que não. Não quero ouvir desgraças alheias. Para isso já me chegam as dos doentes no hospital."
"-É verdade, é enfermeira. Gosta?"
"-É claro que gosto. Tudo o que sempre sonhei. E estou perto de concretizar o meu grande sonho."
"-Sonho?"
"-Sim, ser enfermeira em África. Estar perto dos nossos combatentes, dos nossos heróis da guerra." - o seu olhar brilhava ao falar de África, da guerra, dos combatentes.
Levei a tarde toda a ouvi-la falar. Por vezes sorria, acenava com a cabeça ou encolhia os ombros. A palavra era da Ana Maria. Aos poucos dei por mim a querer conhecer um pouco mais do mundo da guerra, do que haveria em África. Contou-me que era madrinha de guerra de alguns combatentes, e que tinha sido essa correspondência com eles que a estava a puxar para o continente africano.
Ela sorria ao falar, e aquela imagem, aquele sorriso fez-me tão bem. A minha alma, o meu ser já não estava triste, dorido, ferido.
"-Mas o que é preciso fazer para ir contigo?" - perguntei a medo.
"-Ires comigo? Para África? "
"-Sim."
Ouvi a sua gargalhada que repentinamente se calou. O seu olhar agora, mostrava medo, raiva. Colocou-se de pé e a sua voz um pouco embargada apenas conseguiu dizer. "Foge!"
Quando dei por mim, já dois matulões me seguravam os braços, um terceiro deu-me um soco nas têmporas que me deixou um pouco atordoado. Vi outros dois segurarem a Ana Maria e quando tentava soltar-me, levei um segundo soco e senti o meu corpo desfalecer.

(continua)

sábado, 8 de outubro de 2011

Um Delírio XIX

O Fado - José Malhoa 1910
(continuação)
A aragem do final de tarde gelou-me o corpo.
Lisboa estava mais fria ou seria o meu ser que a sentia gelada.
Estávamos no final do Verão, início de noite, logo não podia estar gelo.
A cidade nunca me fascinara. Gente, barulho, movimento a mais.
E assim se encontrava neste momento.
À medida que a carrinha do sr. Meireles avançava, observava toda a azáfama citadina; os poucos carros que passavam lado a lado, as senhoras apressadas nas compras, os senhores com o seu passo calmo, fumando os seus charutos, alguns rapazes e raparigas com as suas fardas bem aprumadas.
- Sr. Meireles que fardas são as daqueles moços?
- São as da Mocidade Portuguesa, nunca ouviu falar?
Já tinha ouvido falar. Embora as notícias não chegassem ao mesmo tempo que os acontecimentos na capital, mas sempre se ouvia alguma coisa na terra.
- Sim, sim.
- Onde quer que o deixe?
- Onde quiser. Não tenho local fixo para ficar.
- Mas porque se veio embora?
- Desgostos, sr.Meireles, desgostos.

Não queria voltar a pensar naquela mulher, naquele sítio. Por mais que lhe custasse, sabia que não voltaria à aldeia.
- Pode ficar aqui?
- Claro que sim, está perfeito.
Desci, e fiquei a ver a carrinha da biblioteca itinerante afastar-se.
O cheiro a mar era intenso. Embora não o visse, não deveria estar longe.
Para que lado ir? Uma incógnita que deixou de ser ao ouvir o som de uma guitarra. Uma guitarra portuguesa, a ser tocada com uma perfeição esplêndida. Os acordes, o dedilhar pelas cordas, tudo tocado de uma maneira tão intensa, parecia alguém a chorar, implorar.
A medo fui ao encontro de tal melodia. Vinha de uma casa. As portas abertas deixavam o som sair com nitidez. Não tinha medo. Embora a noite já fosse bem alta, não tinha receio de estar ali. A música parou. O som de aplausos faziam-se agora ouvir. Uma casa de espectáculos. Como seria? Nunca tinha visto uma, embora soubesse que haviam muitas em Lisboa, algumas clandestinas. Os tempos não estavam fáceis. A guerra no Ultramar, a PIDE/DGS e as suas investidas dia após dia de violência, desumanidade e espesinhamento para impedir os Portugueses do livre exercício dos direitos cívicos, levaram muitos portugueses a fugir, a viver oprimidos.
-Pode entrar!
-Não, deixe estar. Vim aqui ter por causa da música. Nunca tinha ouvido tocar assim tão bem.
-Entre um pouco. Já comeu alguma coisa?
-Não.
-Venha. Ofereço-lhe uma sopa.
-Eu tenho dinheiro. - fui dizendo enquanto descia as escadas, que levavam à sala onde mais pessoas estavam reunidas. Ao fundo, um pequeno palco, onde estavam dois homens de fato escuro sentados, cada um com a sua guitarra. No meio deles, uma moça lindíssima, com um xaile negro pelos ombros. As mesas estavam todas ocupadas. Atravessámos a sala e entrámos num compartimento onde um senhora se encontrava ao fogão e duas moças mais novas preparavam os pratos que iam servindo. Que cheiro tão bom!!
-Mãe, encontrei este amigo à porta. Ainda há por ai um prato de sopa?
-Sempre, meu filho!
-Obrigado, senhora. Quando olhei, a senhora mais velha, estava à minha frente. O rosto um pouco amassado, negro. Até as inúmeras rugas, pareciam quase não existir.
-A senhora está bem?
-Não se preocupe filho, mais uma visita de uns amigos. Gostam muito de me visitar de tempos a tempos.
Sentei-me à mesa. Não conseguia deixar de olhar para aquela senhora que não tinha menos idade que a minha mãe. Os olhos ficaram molhados, uma dor intensa atingiu o meu peito. O que seria que aquela senhora teria feito, para merecer tal castigo? Visita habitual? Comi em silêncio.
-É a vida, meu filho! Nada fiz de mal. Tenho que ter a porta aberta para ganhar dinheiro. Não posso escolher quem aqui entra. Quando chegam, partem tudo. Levam dois ou três, muitas vezes escolhidos no momento, homens, mulheres, não interessa. Não sabemos para onde vamos. Ficamos horas, dias, depende. Uns voltam, outros. Bem outros, nem sabemos.
-Minha senhora, a senhora tem a idade da minha mãe. Que mal faz? Essa gente não tem mãe?
-Isso não lhes interessa. Eles querem silenciar, quem se lhes atravessa no caminho. Tem onde ficar esta noite?
-Não. Acabei de chegar da aldeia.
-Fique connosco. Amanhã logo se verá. Tem um quartinho atrás daquela porta. Pode lá pernoitar.
-Obrigado. Muito obrigado. Então assim aproveito e vou descansar. A viagem foi desgastante. Mais uma vez, muito obrigada.
Levantei-me, peguei no prato e talher, coloquei em cima da bancada e ao passar pela senhora, dei-lhe um beijo de boa noite. O beijo que teria dado à minha mãe.
-Dorme bem, meu filho!
-Igualmente minha mãe. E saí tão rápido para ela não ver as lágrimas que caíam pela minha face.
Deitei-me assim como estava. Fiquei a pensar na minha mãe, no meu pai, na minha vida e adormeci.
(continua)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Às voltas..

Ando com o "Delírios" à volta.
Está difícil a continuação deste novo "episódio".
Pode ser que hoje, ou, visto o adiantar da hora, amanhã, apareça.
O José está a bloquear a situação, mas também merece um lugar de destaque.
Fui, encontrar-me com o José...para que ele me conte tudo o que se passou quando saiu da aldeia.

sábado, 6 de agosto de 2011

Um Delírio XVIII

Giorgione 1477/1510
O pôr do sol

(continuação)

Uma calma tão profunda inundava o meu ser. O meu coração parou de bater! Só pode ter deixado de bater, morri e encontro-me no céu. Que outra explicação!
Fui enganado. Fui enganado pela mulher que mais amava. Pela mulher que jurei a seu pai, amar por toda a vida, respeitar e honrar. E o que fazia ela?? Tudo menos respeitar e honrar-me.
O riacho corria suavemente. Uma leve brisa fazia ondear o arvoredo circundante. As primeiras folhas caiam sobre a vegetação verde, que serpenteava o riacho, que tantas vezes tinha servido para nos refrescar na vinda da lida do campo. Era sobre aquele pasto verde, que me deitava a observar o céu. O sol passava por entre a folhagem. Por vezes as nuvens interrompiam tal beleza.Era assim que queria recordar aquele local.
Um dia voltarei, mas agora o mais sensato é ir embora.
O que dizer aos meus pais? O que dizer aos pais da minha noiva?
O caminho para casa foi penoso, doloroso. Daria um desgosto à minha mãe; o meu pai nada diria, mas iria sofrer por dentro. Mas iriam compreender. Não poderia ficar nem mais um dia.
Ao chegar a casa, esta encontrava-se vazia. Na cozinha a mesa com um cesto de fruta. À direita a pequena chaminé, onde fogueava já os chamiços para preparar o jantar. À esquerda, a pequena máquina de costura de minha mãe, com alguns tecidos perto, tecidos esses que seriam para a minha futura casa.
Entrei apressado no meu quarto. A cama encontrava-se delicadamente arrumada. No pequeno cesto de verga, que servia de mesa de cabeceira, encontrava-se um retrato de meus pais.
As mãos tremiam ao pegar no retrato. Segurei-o junto ao meu coração e chorei.
"- Perdoem-me! Só vos peço perdão. Um dia voltarei."
Tirei a pequena mala debaixo da cama, coloquei duas, três mudas de roupa, um casaco e no cimo a foto dos meus pais. Ao fechar a mala, senti o meu coração bater mais rápido como se quisesse saltar do meu corpo.
"- O que estou a fazer!!"" - gritei.
Saí e fechei a porta.
Na sala, procurei o pequeno livro de apontamentos da minha mãe.
As mãos tremiam, os pensamentos saiam tão rápidos que não conseguia escrever nada.
Respirei fundo.
" Queridos pais.
A dor que assola o meu corpo é tão grande que antes que cometa a maior loucura do mundo e os deixe envergonhados, prefiro ir embora.

O noivado terminou. A noiva encontrou outro pretendente, que a faz mais feliz. Não esperou que eu a fizesse.
Voltarei um dia.
Perdoem-me.
Amo-vos muito"
Colocou o bloco em cima da mesa da cozinha e saiu.
Pegou na mala e seguiu pelo caminho até à estrada. Não olhou para trás.
As lágrimas corriam pela face, não o deixando ver o caminho. Um caminho que não tinha volta. Não agora.
"- Olá José, vais a algum lado?"
"- Viva sr. Meireles. Vou para Lisboa."
"- Lisboa? Então não casas daqui a poucos dias?"
"- Já não."
"- Entra que eu dou-te boleia!"
O caminho até Lisboa foi longo. Estávamos no fim do verão e as nuvens que passeavam pelo céu, escureceu-o bem depressa.

(continua)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um Delírio XVII

Tomás da Assunção
Vista da Penha de França - 1857


(continuação)

Pela primeira vez em toda a minha vida, sentia-me desconfortável. Estar ali, na presença daquela criança, mexeu comigo, com o meu ser, com o meu íntimo.
Nem mesmo, quando sofrera o maior desgosto de amor. O qual me fez ingressar numa guerra que não era minha, viver uma vida de dor, mágoa, morte, passar os maiores horrores. Horrores esses que me acompanhariam por toda a vida.
"-Obrigado."
Meu Deus até a sua voz, era voz de anjo. Um anjo que me protegeu, me encaminhou a casa. O anjo com o qual sonhei mais de 5 anos.
Saíra de Portugal há alguns anos. Um pouco afugentado por um desgosto amoroso. Pensara eu que a fuga seria libertadora e no fim foi mais uma prisão eterna.
Quando era moço, tinha como pretendente a casamento, uma moça da aldeia vizinha. Casamento já combinado entre as nossas famílias. Era uma moça bonita, robusta, uma moça do campo. De manhã, acordava a pensar nela, passava o dia a suspirar por ela e à tardinha quando a ia visitar, o meu coração quase que saltava pela boca. As mãos tremiam, a voz saía um pouco atabalhoada. Nada saía como devia ser e ela sorria. Pensava eu que sorria da minha atrapalhação que eu dizia que com o tempo passaria, que eu não era assim, ficava assim perto dela.
Todo o final do mês, metade do dinheiro que recebia da vida agrária, entregava ao pai dela, que aos poucos nos ia construindo a casa que um dia seria nossa. As nossas mães entretinham-se nos dias de feira a comprar os tecidos mais bonitos, as rendas mais bonitas para compor o enxoval.
Os meses foram passando.
Certa tarde de verão, perto do dia do nosso casamento, e como já tínhamos "ordem" para passear um pouco pela aldeia, fiquei mais à vontade e quando nos íamos a despedir, "roubei-lhe" um beijo. Ela fugiu para casa. Tentei falar com ela, pedir desculpa pelo sucedido. Não sabia se tinha ficado ofendida comigo. Afinal dali a um mês íamos casar.
Durante uma semana não soube nada dela. O pai dela veio a minha casa e disse que ela estava doente. Já tinham ido ao médico, não era nada grave, mas precisava repousar.
Fiquei preocupado. Teria sido o beijo que a tinha posto doente??
O dia amanheceu cinzento.
Dias antes, tinha visto chegar à loja do sr. Janeiro, uma peça de chita. A mais bonita que tinha visto até então. Resolvi logo ir comprar um pedaço para oferecer à minha noiva. Podia ser que ela quisesse falar comigo e assim saberia se já estava melhor.
O embrulho debaixo do braço, deixava todas as moças da aldeia a olhar a pensar no que levaria ali. Os homens cochichavam à minha passagem. Naquele dia sentia-me um homem importante.
No caminho para casa da minha amada, começou a chover. Uma chuva miudinha no inicio, passou a tormenta em poucos minutos.
Ao passar pelo moinho abandonado, ouvi vozes. Ao início não consegui perceber quem eram. Sorriam, falavam baixo, mas houve um barulho mais imperceptível que fez com que me aproximasse. Uma respiração ofegante! Duas respirações ofegantes!
Entreabri a porta e vislumbrei dois corpos deitados, despidos. Entrelaçavam-se braços, pernas. Um homem e uma mulher, sem dúvida.
Ali estava um casal em pleno acto amoroso.
Fiquei envergonhado por ter observado um acto íntimo na vida de um casal. Tentei sair sem que percebessem a minha presença. Ao tentar sair, nem reparei que a porta se tinha fechado e bati nela com toda a força. Senti as duas pessoas a olhar para mim, e quando entreabri os olhos fiquei petrificado, paralisado. O meu corpo, o meu ser, a minha alma, o meu coração morreu naquele momento.
Com o cabelo desalinhado, as faces ruborescidas, o corpo suado, ali estava a minha noiva. A noiva que eu pensava doente. A noiva a quem tinha comprado um peça de chita lindíssima. A noiva a quem prometi amar toda a vida. Entregar-lhe a minha vida, o meu amor e ela ali estava a entregar-se a outro.
Abri a porta e saí. Corri, corri. A chuva molhava o meu corpo. As lágrimas molhavam a minha alma. Parei perto do riacho, o meu riacho e gritei até não poder mais, até a voz já não conseguir sair. Fechei os olhos. Naquele momento o meu ser acalmou, senti uma paz imensa. A dor que sentia, passou. A olhar para mim, encontrava-se uma criança. Abri os olhos e não vi ninguém.

(continua)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Um Delírio XVI

Woman in a Boat - Renoir 1867




(continuação)


À minha frente encontra-se o rosto que me fez viver. O rosto pelo qual eu prometi a mim mesmo que iria conhecer.

Sempre pensei que seria o rosto de um filho meu, de uma filha à muito desejada, quem sabe com a moça dos aerogramas.

Tantas vezes que me deitara a pensar, falar com aquela criança. Aos poucos fui-me "apaixonando". Era a minha confidente das alegrias, das tristezas, das perdas, dos sonhos, dos desejos.

Nas noites mais tenebrosas de conflito, sentia que algo me dizia o que fazer, como fazer, onde me esconder, quando disparar. Era aquele olhar que via, quando fechava os olhos.

Por cada camarada perdido, por cada dor sofrida, por cada pesadelo era por aquele olhar que queria viver.

Mesmo ao chegar a Portugal, a perda que tinha sofrido com a moça dos aerogramas, foi compensada pelo rosto.

E, agora estava de volta a casa, à terra das minhas gentes e ali estava o rosto, o corpo. O corpo de uma criança que não deveria ter mais do que 10, 11 anos. Fiquei confuso.

Como pode aquele rosto estar ali? Era o rosto da minha filha!

Senti o chão fugir. Caí. E essa queda foi muito dolorosa de sentir. Era impensável o que estava a acontecer. Quem seria aquela criança? Sempre era uma criança que eu via. Mas não era minha filha. E já lhe tinha um amor tão grande. Mas ela existe!

"- Não te asustes! Não te quero fazer mal."

Como poderei um dia chegar perto, se ela foge com medo?

O meu olhar foi ao chão. Perto onde ela estava, estava uma sacola. Fugiu com medo e esqueceu-se da sacola. E agora, como a encontro para lhe a entregar?

Fui andando até à casa de meus pais.

Os meus pensamentos estavam a passar tão rápido por mim, que não os estava a conseguir ordenar. " O rosto não é da minha filha! O rosto é de uma criança da minha aldeia! Como será possível eu conhecer esse rosto? Porque? Porque? Quem?" Queria fugir dali. Os meus pés levavam-me por caminhos que o meu corpo não conhecia.

Debaixo de uma laranjeira, estava a menina que vira antes.

Tinha que ir ter com ela, saber quem era.

Ao chegar perto reparei que tinha os olhos fechados, parecia que estava a dormir.

Ao sentir os meus passos, abriu os olhos. Aqueles olhos lindíssimos que tanta vez imaginara. Estavam assustados! Eu estava a assustar a minha menina!

"-Olá! À pouco, deixaste a sacola perto do riacho." tentei fazer o meu melhor sorriso para não a assustar.


(continua)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um Delírio XV

Galatea de las Esferas - Salvador Dalí
(1952)


(continuação)

"José"

Nos últimos dias tinha reparado que Maria não estava bem. Mesmo com os miúdos andava um pouco mais irritada. O dia a dia da casa, os míudos, deixavam-lhe pouco tempo para si. Mesmo a leitura de que gostava muito era feita pelas altas horas da madrugada. Continuava linda como no dia em que tinham casado e nem o nascimento dos três filhos lhe tinha retirado a figura esbelta de outros tempos.
Sabia que a enorme diferença de idades tinha sido um obstáculo no início, mas com o tempo foram sabendo contornar essa diferença.
Ainda se recorda do primeiro dia em que a tinha visto. Tinha chegado de África à poucos dias. A guerra tinha destruído tudo de bom que existia. Agora só pensava em regressar a casa, para junto de seus pais e tentar ser feliz. Como se isso fosse possível, depois de tudo o que tinha passado, visto e vivido.
Durante a guerra e na altura em que os confrontos eram mais intensos, fechava os olhos e via um riacho, via uma carinha a olhar para si, um rosto de criança. E era aquele rosto, a tentativa de um dia o ver realmente que o fazia acreditar que iria sair dali com vida. Que iria voltar à terra. Sempre pensou que aquele rosto, seria o rosto de um filho seu.
Vira tantos camaradas seus sucumbir mesmo ao seu lado. Alguns ficavam ali, assim, sós, abandonados. Poder-se-ia voltar mais tarde para os conseguir sepultar . Outros ainda dava tempo de os levar, para serem entregues às famílias em Portugal.
Durantes anos o martírio da guerra ofuscou a sua alegria, a sua vida, a sua alma. Aos poucos sentiu morrer o seu interior.
Chegou a Portugal. E esse Portugal que deixara anos antes, não era o mesmo que encontrava.
Durante algum tempo tinha trocado alguns aerogramas com uma moça. Era ela que fazia a ligação entre o Portugal que conhecera e que queria lembrar naquela região árida, bárbara.
Pensava que seria ela a mãe dos seus filhos, a mãe daquela carinha que para si olhava perto do riacho.
Que tolo, que parvo ao pensar que ela estaria à sua espera. De facto, até estava, mas acompanhada pelo respectivo namorado que, vim a saber que era muitas vezes quem ditava o que ela escrevia, e eu a pensar que estaria à minha espera.
Decidi ir para a terra o mais rápido que pudesse. Queria refugiar-me. Refugiar-me nos campos que conhecia, nas gentes que conhecia, na terra, na noite, no ar, no cheiro da minha juventude.
A viagem na camioneta era cansativa, mas naquele dia "bebia" todas as paisagens, todas as searas, todas as árvores, todos os caminhos que me levavam a casa.
Saí um pouco antes, e fiz o resto do caminho a pé.
Ouvi o riacho a correr e encaminhei-me para uma das várias entradas que tinha. Parecia mais belo do que noutros tempos. Estava ali o riacho dos meus sonhos, dos meus desejos.
As lágrimas teimaram em sair descontroladamente. Era ali! Estava ali! Em casa. Finalmente em casa. Só faltava o rosto.
Ouvi uns passos e voltei-me!
Pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, caminhava uma menina.
Quando os nossos olhos se encontraram, vi o rosto com o qual tantas vezes sonhara.
Ela existe! Ela existe!
(continua)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um Delírio XIV




(continuação)



Ricardo tinha perguntado por mim!!

"- Entrego para o mês que vem. Pode ser que o sr. Meireles venha." - respondi, mais para tentar desviar a conversa pois sabia que isso não seria verdade.

"- Mesmo assim, o sr. Ricardo enviou outro livro para leres e disse que poderias entregar os dois para o mês que vem."

Peguei no livro, mas nem olhei para a capa. Mais tarde veria com mais atenção. Ao colocá-lo em cima da mesa, caiu um envelope.

"-Um envelope?!!!"- pensei. O meu coração acelarou.

José baixou-se e segurou no envelope.

"- Isto caiu do livro e tem escrito o teu nome. O que se passa Maria? Porque este envelope tem o teu nome? Porque não foste entregar o livro?" - perguntou José, saindo a sua voz num tom cada vez mais alto, mais alterado.

"- Não sei." - respondi sem saber o que mais dizer ou fazer.

Vi as mãos de José rasgar o envelope bruscamente. As sua mãos seguravam uma pequena folha. Os seus olhos encheram-se de lágrimas, amachucou o papel, e saiu.

Levantei-me da cadeira, os meus pés não conseguiam coordenar os movimentos até à porta da rua. "Meu Deus, o que estaria escrito naquele papel? Onde foi José?"


(continua)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um Delírio XIII

Claude Monet (Garden Path/1902)

(continuação)

Casar!! Será que estava a ouvir bem?! José estava a pedir-me em casamento??"- Então o que dizes?- Achas um disparate, não é? Eu tenho idade para ser teu pai. - a voz saiu tão sumida, como se tivesse medo que eu ouvisse o que ele dizia."- José, tenho quase 15 anos. Acabei de perder o meu pai. Ainda nem tive tempo para pensar o que será a minha vida, o meu futuro. Tenho a minha mãe, tenho que a ajudar.""- Eu sei isso, Maria. Eu sei. E por isso mesmo te faço este pedido, neste dia."Como toda a rapariga, também eu sonhava com o meu casamento. O vestido, a igreja, a festa, o noivo. O noivo tinha sido até à bem pouco tempo, a única incerteza em todo este sonho. O corpo era visível, a face nem tanto. Tantos livros que lera, tantos sonhos. E, agora, neste momento o confronto com um dos sonhos ao qual eu não sabia dar resposta.A mão de José segurou a minha. Os nossos dedos entrelaçaram-se. Os seus dedos faziam cocegas na minha mão.O meu olhar baixou ao chão. A dor tornara-se mais forte. Os olhos encheram-se de lágrimas. Lágrimas de tristeza, lágrimas de felicidade."- Não chores, Maria. Por favor não chores. Se não quiseres casar, eu compreendo. Afinal somos desconhecidos um para o outro. Se tu quiseres, eu espero.""- Eu quero, José. Eu quero casar contigo. Choro de tristeza pela perda de meu pai. Ao mesmo tempo sinto alegria por este pedido.""- Minha doce Maria."Senti os seus lábios tocar levemente os meus. Os seus braços envolver o meu corpo.Fechei os olhos e deixei-me levar.



Recordei tudo isto, desde que José tinha fechado a porta."-Maria, ouviste o que te perguntei?"Levantei-me e fui ter com José. Beijei-o como se fosse a primeira vez, como a do riacho."- Gosto muito de ti, José.""- Também gosto muito de ti, minha doce Maria."O nosso olhar encontrou-se e os seus olhos transmitiam amor."- Ainda não me respondes-te. Porque não foste à biblioteca? O sr. Ricardo perguntou por ti. Não foste levar os livros?"Ricardo! Ricardo, perguntou por mim?!?
(continua)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um Delírio XII


(Continuação)

A profunda dor continuou em meu peito.
Que difícil era respirar!
Ouvia a respiração pausada de minha mãe, o vento a soprar nos cabelos.
Continuava com os meus olhos fechados.
Ouvi passos ao longe, senti a minha mãe voltar a cabeça e dizer algo.
"- Tens que vir para casa!" - ouvi a voz de José calmamente bem perto de mim.
As lágrimas ofuscavam a minha visão.
"- José!" - a voz saiu muito embargada.
Senti os braços de José envolver o meu corpo. Pegou-me e levou-me do sítio onde acabava de ficar metade do meu coração.
A minha cabeça ficou amparada no ombro forte, robusto de José. Os meus braços envolveram o seu pescoço. Senti uma paz. Ali sentia calma.
Olhei ao longe a terra revolta onde tinha ficado o corpo de meu pai. As flores espalhadas pelo alto, de forma ovalada, fez-me recordar a planície na primavera.
"- Tu prometes-te que irias ser forte."
José parou e o nosso olhar encontrou-se.
"- Temos que falar e tem que ser hoje!" - a sua voz denunciou perturbação.
Os braços que me tinham amparado estavam a colocar-me no chão.
Sentámo-nos na beira da estrada e fiquei a olhar para José.
"- Que queres dizer?" - perguntei um pouco envergonhada.
Ele disse algo que não percebi. O meu pensamento estava longe naquele momento. Olhava para José e recordava o nosso primeiro beijo. Pensei: "E, se ele me ia dizer que se ia embora? Que nunca mais nos poderíamos ver?"
"- O que dizes? Maria!" - a sua voz soou um pouco mais alto.
"- Dizer do quê?"
"- Não ouviste nada do que te disse!"
"- Vais-te embora?"
"- Embora!? Maria, perguntei-te se querias casar comigo!!"
"- Casar?? Eu?? Contigo??"

(continua)

sábado, 18 de junho de 2011

Um Delírio XI

Nicholas Poussin
The Funeral of Phocion, 1648


(continuação)

O espelho que se encontra à minha frente, reflecte uma figura escura, estranha, distante.A cara alegre de outros dias, está fechada, triste.Os olhos vermelhos, inchados. A pele envelheceu séculos. O olhar, fundo, vazio.Esta dor, agonizante que não me deixa respirar, dificulta o meu viver, está cada vez mais entranhada no meu corpo, no meu ser.
"-Maria, temos que ir."

"-Vou já, mãe!" - digo muito baixo.
Escovo o cabelo mais uma vez. Fecho os olhos e por mais que queira, não consigo chorar. A dor é tão forte, que me bloqueia.
"O meu pai! O meu querido pai! Partiu! Agora foi-se embora!" é aqui que está o meu pensamento.
Lá fora, o sol brilha. Mas esse brilho, ao contrário de outros dias, não alegra a minha alma.
Ao encaminhar-me para a porta revejo toda a minha curta vida. Em todos os momentos lá estava o meu pai. Até quando me perdi, ele foi o primeiro a chegar perto de mim.
Ao entrar na sala, reparo que está cheia, mas a dor intensa, nem me deixa ver quem lá se encontra. Aceno a cabeça em sinal de cumprimento. O olhar encontra pessoas, mas o pensamento não consegue distinguir quem são.
O cemitério sempre foi um sítio que me deixava melancólica, distante. Ao passar ao seu lado, a caminho da escola; verão, inverno, sol, chuva, neve, todos esses momentos foram perturbantes.
E, agora estava ali. E nada do que imaginava estes anos todos, era real. O sítio era calmo, de paz.
Estava a olhar para o meu pai.
Agora tinha a certeza que era a última vez!
Ali, aquele momento, aquela imagem era a última recordação do meu pai.
Ouvia o choro da minha mãe, de alguns dos presentes, e a minha alma encontrava-se tão dolorosa, tão dolorosa.
Os meus olhos tentaram encontrar o José. Não me tinha apercebido se ele estaria presente, mas naquele momento pensei nele. Olhei em volta e não o encontrei. Onde estaria?
Senti a minha mão ser segura.
Era a minha mãe. Olhou para mim e nos seus olhos eu vi uma tristeza tão grande.
"-É agora, Maria! Vai partir para sempre!"
Agarrei-me com toda a força à minha mãe. Os meus braços envolveram o seu corpo, as minhas mãos agarraram com toda a força as suas costas e nesse momento o meu mundo ruiu, desabou para todo o sempre. Senti as minhas pernas fraquejar, enquanto toda a força do meu corpo se concentrava naquele abraço a minha mãe. As lágrimas saíam sem eu ter controlo nelas. A dor tão profunda no meu peito, no meu ser, no meu corpo. Chorei!!
Enquanto o meu pai descia até à sua última morada, a dor ficava cada vez mais forte, das minhas mãos escorria sangue!
Aos poucos as pessoas iam embora. Sentia a minha mãe mexer a cabeça. Ninguém se aproximava de nós.
Os meus joelhos tocavam o chão. Os meus braços abraçavam agora as pernas da minha mãe.
As lágrimas caíam ininterruptamente!
O sol estava baixo no horizonte.
Nenhuma das duas tinha saído do seu lugar.

(continua)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um Delírio - X

Le Jour des morts, 1859, William-Adolphe Bouguereau

(continuação)

Senti o seu corpo ficar tenso. O seu abraço continuava forte. Senti os seus braços envolverem o meu corpo, sufocando-me.
"-Porquê desculpa?!" - a minha voz saiu sumida, abafada pelo medo.
O seu corpo afastou-se um pouco. O nosso olhar encontrou-se, de novo.
"-Maria, tens 15 anos! Eu tenho 40. Não podemos, não devemos!"
Fechei os olhos. As lágrimas teimavam em sair. Não queria que me visse chorar. À minha memória vieram algumas das românticas heroínas, que povoavam a minha imaginação, que "saltavam" dos livros que folheava apaixonadamente.
Esta era a dor da rejeição, do incorrecto, que algumas vezes lera. Esta dor, insuportável que se alojou em meu peito, que me cortava a respiração.
"-Minha pequena, Maria. Que irei fazer contigo?"
Senti, os seus lábios tocarem os meus.
"-Anda! Temos que ir ver como está o teu pai. Ele está muito mal. Tens que ser forte!"
Não percebi porque estaria José a dizer aquelas coisas. "Ver o meu pai?" , "Ser forte?" não entendia.
Fomos andando pelo riacho. As nossas mãos iam juntas! Ia de mãos dadas com José! Não senti os minutos passar, nem tão pouco a beleza do riacho me cativava como em outros passeios. José falava comigo, mas o meu pensamento, o meu espírito encontrava-se lá atrás. Tinha ficado no sítio onde demos o nosso primeiro beijo. O meu primeiro beijo.
Senti a sua mão agarrar a minha fortemente. Olhei para ele.
"-Que se passou?"
"-Promete-me que vais ser forte!"
Não estava a entender o que ele queria dizer. Os meus olhos tentavam encontrar um ponto que me fizesse perceber o que se passava.
"-Maria, promete!" - a sua voz forte, possante, assustou-me.
"-Prometo."- respondi envergonhada.
Quando chegámos perto de casa, vi algumas pessoas à porta. Umas choravam, outras olhavam em silêncio para longe. "O MEU PAI!!!!".
Soltei a mão das de José, corri, corri até não poder mais. A ânsia de chegar a casa. Queria ver o meu pai. "O que se estava a passar?!".
Passei pelo amontoado de gente, empurrando alguns, tropeçando noutros. Não pedia desculpa, nem queria saber se magoava alguém. Entrei.
A minha mãe encontrava-se à cabeceira da cama onde o meu pai estava.
Senti a mão de José puxar-me.
"-Forte!" - ouvi ele dizer baixinho.
"-Pai, estou aqui."
Cheguei perto da cabeceira. As minhas mãos tocaram as do meu pai. Frias, gélidas. O seu olhar encontrou o meu. Tentou sorrir. O seu olhar sorriu ao ver-me.
"-Minha pequenina! Meu doce!" - a sua voz saía tão sumida. A sua respiração arfava.
"-Estou aqui, paizinho! Estou aqui!". Debrucei-me sobre a sua face. "Mil" beijos saíram dos meus lábios. Pequenas lágrimas caíam. Tudo o resto parou. Era só eu e o meu pai, ali. Nada mais existia. Aquele momento era nosso. Os nossos olhos "falavam" por nós.
"-Maria, serás sempre a minha flor, a minha fada."
"-Não fale, que se cansa."
"-Está aí o José?"
"-Sim, senhor. Estou aqui." - respondeu José, já perto de nós.
"-Sabes o que tens que fazer. Promete-me!"
"-Fique descansado! Tratarei de ambas."
"Tratar de ambas? Promessas?"- O que se estava a passar ali? Agora não interessava. Tinha que saber o que estava a acontecer com o meu pai. Ficar ali ao pé dele. Aconchegá-lo.
Senti a sua mão pegar a minha fortemente. Os seus olhos encontraram os meus. Amor, pena, tristeza. Tudo o que o seu olhar transmitiu. Agarrei-o bem forte. Os meus lábios repousaram suavemente na sua testa.
"Amo-te!!" - disse o meu pai, num som que só eu consegui ouvir.
Os olhos fecharam-se. Uma lágrima correu. Não se moveu mais.
"NÃO!!!!!!" - a minha voz soou tão forte como se rasgasse o meu peito pela dor que senti.